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ÍNDICE

Atos dos Apóstolos

Índice
Capítulos
Atos 1
Atos 2
Atos 3
Atos 4
Atos 5
Atos 6
Atos 7
Atos 8
Atos 9
Atos 10
Atos 11
Atos 12
Atos 13
Atos 14
Atos 15
Atos 16
Atos 17
Atos 18
Atos 19
Atos 20
Atos 21
Atos 22
Atos 23
Atos 24
Atos 25
Atos 26
Atos 27
Atos 28

ATOS 1

Por suas palavras de abertura, os Atos dos Apóstolos estão ligados da maneira mais clara com o evangelho de Lucas. O mesmo Teófilo é abordado, e no primeiro capítulo a história é retomada justamente no ponto em que o evangelho parou, exceto que alguns detalhes extras são dados das palavras do Senhor após Sua ressurreição, e o relato de Sua ascensão é repetido em um cenário um pouco diferente. O evangelho leva à Sua ressurreição e ascensão. Os Atos partem desses fatos gloriosos e desenvolvem suas consequências.
No primeiro versículo, Lucas descreve seu evangelho como um “tratado ... acerca de tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar. A palavra “começou” é digna de nota. Dá a entender que Jesus não deixou de fazer e ensinar por causa de Ele ter sido elevado para além da visão dos homens. Os Atos nos dizem o que Jesus fez, derramando o Espírito Santo vindo do Pai, para que por Ele pudesse agir por meio dos apóstolos e outros. Da mesma forma, descobrimos, lendo as epístolas, o que Ele passou a ensinar por meio dos apóstolos no devido tempo. Antes de ser levado, Ele deu as instruções necessárias aos apóstolos, e isso “pelo Espírito Santo”, embora ainda o Espírito não lhes tivesse sido dado. Em seu evangelho, Lucas nos apresentou o Senhor como o Homem perfeito, agindo sempre no poder do Espírito e, nessa mesma luz, O vemos aqui.
Pelo espaço de quarenta dias Ele Se manifestou como aqu’Ele que vive além do poder da morte, e assim, abundante prova foi dada de Sua ressurreição. Durante esses contatos com Seus discípulos, falou-lhes de coisas concernentes ao reino de Deus e os orientou a esperar em Jerusalém a vinda do Espírito. João, que batizou com água, apontou para Ele como o Batizador com o Espírito Santo, e que esse batismo iria alcançá-los em poucos dias.
O Senhor estava falando do reino de Deus; as mentes dos discípulos, porém, ainda perseguiam a restauração do reino a Israel. Nisso eles eram como os dois indo para Emaús, embora agora soubessem que Ele havia ressuscitado. Sua pergunta deu ao Senhor a oportunidade de indicar qual seria o programa para a abertura da dispensação, e vemos novamente o que vimos em Lucas 24; o centro do programa não é Israel, mas Cristo. A vinda do Espírito significaria poder, não que os apóstolos devessem ser restauradores de Israel, mas “Minhas testemunhas” – testemunhas de Cristo até os limites mais extremos da Terra. Os quatro círculos de testemunho, mencionados no final do versículo 8, nos fornecem uma maneira de dividir o livro. Começamos com o testemunho em Jerusalém e até o final de Atos 7 estaremos ocupados com aquela cidade e a Judeia. Então no capítulo 8 vem Samaria. Em Atos 9, o homem que leva o evangelho aos gentios é chamado; e em Atos 13 começa a missão para as partes mais remotas.
Parece haver uma contradição entre o versículo 7 e o que Paulo escreve em 1 Tessalonicenses 5:1-2. Mas o ponto é que eles sabiam bem o que iria acontecer no trato de Deus com a Terra: aqui indica que não podemos saber quando, desde que é um assunto reservado pelo Pai apenas para Si mesmo. Nosso serviço é prestar testemunho verdadeiro e diligente a Cristo. O que esse testemunho produzirá não é claramente manifestado até chegarmos em Atos 15:14.
Tendo dito estas coisas Jesus foi elevado e uma nuvem – sem dúvida a nuvem de Lucas 9:34 – O escondeu de seus olhos. Dois mensageiros celestiais, porém, ficaram ao lado deles para complementar Sua declaração de alguns momentos antes. A missão desses mensageiros era serem testemunhas do Cristo que havia subido; mas a esperança dos discípulos era o Seu retorno assim como Ele subiu. Sua ida não era algo figurativo, sombrio, místico, mas real e literal. Sua vinda será real e literal da mesma maneira.
Dez dias tiveram que passar antes da vinda do Espírito, e o resto do capítulo nos conta como aqueles dias de espera foram ocupados. O número de discípulos declarados em Jerusalém “era de quase cento e vinte pessoas”, e “oração e súplicas” eram o que preenchia o tempo deles. Não poderia haver testemunho até que o Espírito fosse dado, mas eles poderiam tomar e se manter no lugar seguro de total dependência de Deus.
E, além disso, eles poderiam se referir às Escrituras e aplicá-las à situação existente, na medida em que o Senhor abria suas mentes para entendê-las, como registrado em Lucas 24. É notável que Pedro tenha sido o único a tomar a iniciativa nesse assunto, visto que ele próprio pecara tão tristemente apenas seis semanas antes. Ainda assim mostra que o Senhor efetuou sua completa restauração, e ele foi capaz de juntar os Salmos 69:25 e 109:8 dessa maneira impressionante. “Bispado”, claro, deveria ser “ofício” ou “encargo”, como a referência ao Salmo irá mostrar. Era o ofício do apostolado que estava em questão, como também o versículo 25 do nosso capítulo mostra. Os versículos 18 e 19 não são, evidentemente, as palavras de Pedro, mas um parêntese em que Lucas nos dá mais detalhes do terrível fim de Judas.
Uma característica essencial do apostolado foi o conhecimento em primeira mão do Salvador ressuscitado. O apóstolo deve ser capaz de testificar d’Ele como tendo pessoalmente visto-O em Seu estado ressuscitado: daí a terceira pergunta do escritor de 1 Coríntios 9:1. Paulo o viu, não durante os quarenta dias, mas depois no brilho da Sua glória. No entanto, desde o início deve haver as doze testemunhas apostólicas, e Matias foi escolhido. Eles recorreram à prática do Velho Testamento de lançar sortes: direção, tal como lemos em Atos 13:2, não poderia ser conhecida até que o Espírito Santo tivesse sido dado.

ATOS 2

Se lermos Levítico 23, poderemos ver que, assim como a Páscoa era profética com relação à morte de Cristo, o Pentecostes era profético quanto à vinda do Espírito, em cujo poder é apresentada a Deus a “nova oferta de manjares” (Lv 23:16), que consiste nos dois pães de primícias – uma eleição de judeus e gentios, santificada pelo Espírito Santo. Assim como aquilo para o qual a Páscoa apontava foi cumprido no dia da Páscoa, Aquilo que o Pentecostes apontava foi cumprido no dia de Pentecostes. Em Jesus, o Espírito veio como uma pomba: sobre os discípulos, como o som de um vento ou um sopro poderoso, e como línguas de fogo repartidas. O vento apelou para o ouvido e lembrou-os do assopro do próprio Senhor, do qual João 20:22 nos fala. As línguas de fogo apelaram para os olhos e foram bastante singulares. O vento encheu todos: as línguas pousaram sobre cada um deles. Podemos conectar o poder interior com um; e a expressão do poder em muitas línguas com o outro, conforme o Espírito dava expressão. Quando Jesus veio, Ele era audível, visível e tangível – veja 1 João 1:1. Quando o Espírito veio, Ele era audível e visível apenas, e isso de maneira misteriosa.
É importante que, desde o início, devemos distinguir entre o grande fato da presença do Espírito e os sinais e manifestações de Sua presença, que variam muito. Este é o dom definitivo do Espírito, referido em João 7:39, João 14:16, entretanto, uma vez que aqui apenas os judeus estavam em questão, o derramamento do Espírito sobre os gentios crentes (veja Atos 10:45) foi um ato suplementar a isso. Tendo vindo assim, o Espírito habita com os santos por toda a dispensação. Como resultado do derramamento aqui, todos eles foram cheios do Espírito, de modo que Ele estava no controle total de cada um. Devemos também distinguir entre o dom do Espírito e o estar cheio do Espírito, uma vez que o primeiro pode existir sem o último, como veremos mais adiante. Aqui ambos estavam juntamente presentes.
Aqueles a quem o Espírito veio eram um povo que orava, assemelhando-se com o seu Senhor. Eles “todos estavam de um acordo” – KJV (“estavam todos concordemente” – ARF) e, consequentemente, “em um só lugar” – KJV (“em um único lugar” – JND). O único lugar não é nomeado: pode ter sido o cenáculo de Atos 1, mas mais provavelmente, em vista das multidões que ouviram as declarações dadas pelo Espírito, algum pátio do templo, como o pórtico de Salomão. De qualquer forma, a coisa era tão real e poderosa e não podia ser escondida. Foi, dentro de uma esfera limitada, uma reversão de Babel. A orgulhosa edificação do homem foi parada pela confusão de línguas: aqui Deus sinalizou que a Sua edificação espiritual foi iniciada ao exercer domínio sobre as línguas e simplificando-as à ordem.
Podemos ver outro contraste no fato de que quando o tabernáculo foi feito no deserto e o Senhor tomou posse dele pela nuvem de Sua presença, Ele imediatamente começou a falar a Moisés a respeito do sacrifício. Isso é mostrado conectando Êxodo 40:35, com Levítico 1:1-2. Em nosso capítulo temos Deus tomando posse de Sua nova casa espiritual por Seu Espírito, e novamente Ele fala imediatamente por Seus inspirados apóstolos. Muitas pessoas de diferentes países ouvem “as grandezas de Deus”.
A investigação das multidões deu a oportunidade de testemunhar. Pedro era o porta-voz, embora os onze estivessem com ele apoiando suas palavras, e ele imediatamente os direcionou para a Escritura que explicava o que tudo aquilo significava. Joel havia predito o derramamento do Espírito sobre toda a carne em dias que ainda estavam por vir, e o que acabara de transparecer era um cumprimento disso, embora não o cumprimento. As palavras de Pedro, “isto é o que foi dito”, implicam que era da natureza daquilo que Joel havia predito, mas não necessariamente a coisa completa e conclusiva que a profecia tinha em vista. João Batista havia dito de Jesus: “Esse é o que batiza com o Espírito Santo” (João 1:33). Joel dissera que, depois do arrependimento de Israel e da destruição de seus inimigos, deveria haver esse derramamento do Espírito sobre toda a carne. Ora, no dia de Pentecostes, houve uma espécie de primícias disto no derramamento do Espírito sobre aqueles que formaram o núcleo da Igreja. Essa foi a verdadeira explicação do que havia acontecido. Eles não estavam embriagados com vinho, mas cheios do Espírito.
Mas Pedro não parou aí; Ele começou a mostrar porque esse batismo do Espírito havia ocorrido. Foi a ação direta de Jesus, agora Exaltado à destra de Deus. Isso encontramos quando alcançamos o versículo 33; mas a partir do versículo 22 ele estava guiando as mentes das pessoas por meio das cenas da crucificação até a Sua ressurreição e exaltação. Jesus Nazareno havia sido, de forma muito manifesta, aprovado por Deus durante os dias de Seu ministério, contudo eles O mataram com suas mãos iníquas. Ele havia sido entregue a isto por Deus de acordo com Seu “determinado conselho e presciência”, pois Deus sabe como fazer a ira do homem louvá-Lo e realizar Seus desígnios de bênção; embora isso não diminua a responsabilidade do homem no assunto. O versículo 23 é um claro exemplo de como a soberania de Deus e a responsabilidade do homem não se chocam, quando se trata de resultados práticos; embora possamos ter dificuldade em reconciliar os dois como um assunto teórico.
O que eles tinham feito tão perversamente, Deus havia desfeito triunfantemente. A colisão entre o programa deles e o de Deus foi completa. Antevia o completo desmantelamento deles e sua própria derrubada no momento devido; particularmente porque a ressurreição havia sido prevista por Deus, e predita por meio de Davi no Salmo 16. Ora Davi não poderia estar falando de si mesmo, pois ele havia sido sepultado e seu túmulo era bem conhecido entre eles naquele dia. Quando ele falou de Um, cuja alma não foi deixada no Hades e cuja carne não viu corrupção, ele falou de Cristo. O que ele disse foi cumprido: Jesus não foi apenas ressuscitado, mas exaltado ao céu.
Como o Homem exaltado, Jesus recebeu do Pai o Espírito Santo que havia sido prometido e O derramou sobre Seus discípulos. No Seu batismo Ele recebeu o Espírito Santo para Si mesmo como o Homem dependente; agora Ele recebe o mesmo Espírito Santo em favor de outros como Representante deles. Ao derramar o Espírito, esses outros foram batizados em um só corpo e se tornaram Seus membros. Isso aprendemos com as Escrituras posteriores.
Nos versículos 34-36, Pedro leva seu argumento a um passo adiante, ao seu clímax. Davi havia profetizado sobre seu Senhor, que deveria ser exaltado à direita de Deus. O próprio Davi não foi elevado aos céus assim como não ressuscitou dos mortos. Aqu’Ele de Quem Davi falou foi assentar-Se no assento da administração e do poder até que Seus inimigos fossem postos por escabelo de Seus pés; portanto, a conclusão de toda a questão era esta: o derramamento do Espírito, que eles haviam visto e ouvido, provou além de qualquer sombra de dúvida que Deus havia feito do crucificado Jesus, tanto Senhor como Cristo.
Como Senhor, Ele é o grande Administrador em favor de Deus, seja em bênção ou em julgamento. Seu derramamento do Espírito havia sido um ato de administração que revelou Seu Senhorio.
Como Cristo Ele é a Cabeça ungida de todas as coisas, e particularmente do pequeno punhado dos Seus próprios deixados sobre a Terra. Sua recepção do Espírito dado pelo Pai em favor dos Seus, preliminarmente ao Seu derramamento, revelou Seu “estado ou fato de ser o Cristo”[1]
Sendo “feito” Senhor e Cristo é bastante consistente com o fato de Ele ter sido Ambos durante Sua jornada na Terra. Estas coisas foram sempre Suas, mas agora Ele foi oficialmente feito como Tal, como o Homem ressuscitado e glorificado. Notícia maravilhosa para nós; mas terrível notícia para aqueles que tinham sido culpados de Sua crucificação. Isso simplesmente garantiu sua terrível condenação, se eles persistissem em seu curso.
O Espírito, que acabara de pousar sobre os discípulos, começou agora a trabalhar nas consciências de muitos dos ouvintes. Assim que eles começaram a perceber a situação desesperada em que foram colocados pela ressurreição do Senhor, foram compungidos em seu coração e clamaram por direção. Pedro indicou o arrependimento e o batismo em nome de Jesus Cristo como o caminho para a remissão dos pecados e o dom do Espírito Santo; pois, como ele aponta no versículo 39, a promessa em Joel é para o Israel arrependido, e para os filhos dos tais, e até para os gentios distantes. Assim, no primeiro sermão Cristão, a extensão da bênção do evangelho aos gentios é contemplada. A remissão de pecados e o dom do Espírito trazem consigo todas as bênçãos Cristãs.
Pode nos parecer notável que Pedro não mencione fé. Mas deduz-se isso, pois ninguém se submeteria ao batismo em nome de Jesus Cristo, a menos que cresse n’Ele. O batismo significa a morte e, consequentemente, a dissociação da vida e das conexões antigas. Eles não estariam preparados para cortar suas ligações com a velha vida, a menos que realmente cressem naqu’Ele que era o Senhor da nova vida. Com muitas palavras, Pedro testificou e exortou-os a cortar seus vínculos e, assim, salvarem-se dessa “geração perversa”.
A fé estava presente, pois nada menos que três mil receberam a palavra de Pedro. Um momento antes eles conheciam a angústia de ser compungidos em seu coração. Agora eles receberam o evangelho e cortaram suas ligações pelo batismo. Tendo assim se dissociado da massa de sua nação, que havia crucificado o seu Senhor, eles tomaram sua posição ao lado dos 120 originais, que foram multiplicados vinte e cinco vezes em um dia. Além disso, eles não apenas começaram, mas foram marcados pela continuação constante.
As quatro coisas que os marcaram, de acordo com o versículo 42, são dignas de nota. Primeiro vem a doutrina ou ensinamento dos apóstolos. Isso é a base das coisas. Os apóstolos eram os homens a quem o Senhor havia dito: “quando vier aqu’Ele Espírito de verdade, Ele vos guiará em toda a verdade (Jo 16:13). Sua doutrina foi consequentemente o fruto da direção do Espírito. A Igreja tinha agora sua existência, e a primeira coisa que a marcou foi sujeição ao ensino do Espírito por meio dos apóstolos. A Igreja não ensina; é ensinada e está sujeita à Palavra dada pelo Espírito.
Continuando na doutrina apostólica, eles também continuaram na comunhão apostólica. Eles encontraram sua vida prática e sociedade em companhia apostólica. Anteriormente, eles tinham tudo em comum com o mundo; agora a comunhão com o mundo havia desaparecido e a comunhão com os círculos apostólicos havia sido estabelecida – e a comunhão apostólica era “com o Pai, e com Seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 1:3).
Eles continuaram também no partir do pão, que era o sinal da morte de seu Senhor, e também incidentalmente – como aprendemos em 1 Coríntios 10:17 – uma expressão de comunhão. Assim, eles estavam em constante lembrança de seu Senhor que morreu e preservados de se voltarem às suas antigas associações.
Finalmente, eles continuaram em orações. Eles não tinham poder em si mesmos; tudo foi investido em seu Senhor no alto e no Espírito dado a eles. Portanto, a constante dependência de Deus era necessária para a manutenção de sua vida espiritual e testemunho.
Essas coisas marcaram a Igreja primitiva e não devem marcar menos a Igreja hoje. As coisas mencionadas nos versículos finais do capítulo eram de caráter menos permanente. Os apóstolos, com sinais e maravilhas se foram. O comunismo Cristão, que prevaleceu no início, também passou; assim como a perseverança diária no templo e o terem o favor de todo o povo. No entanto, tudo foi superado por Deus. A venda de suas posses provocou muita pobreza entre os santos, quando anos mais tarde veio a fome, foi a ocasião para esse ministério de alívio vindo das assembleias gentias (ver Atos 11:27-30), que tanto contribuiu para unir os membros judaicos e gentios na Igreja de Deus.
No momento, havia simplicidade, alegria e singeleza de coração com muito louvor a Deus. E a obra de Deus, acrescentando o remanescente crente à Igreja, continuou.



[1] N. do T.: O autor aqui usa a palavra “Christhood” que não tem uma correspondente em português, mas cuja definição seria “estado ou fato de ser o Cristo”.

ATOS 3

Atos é um livro histórico, mas não é mera história. Uma imensa quantidade de serviço apostólico é deixada sem registro, e são mencionados apenas alguns incidentes que servem para mostrar o modo como o Espírito de Deus opera em testemunhar o Jesus ressuscitado e exaltado, e em conduzir os discípulos à plenitude das bênçãos Cristãs. O livro cobre um período de transição desde o início da Igreja em Jerusalém até a reunião completa de entre os gentios.
Este capítulo começa com a cura do homem coxo desde o nascimento que jazia na porta Formosa do templo. Como o próximo capítulo nos diz que ele tinha mais de quarenta anos – o período completo de provação havia sido cumprido nele. O homem não havia sido curado pelo Senhor Jesus nos dias de Sua carne, embora Ele frequentemente ensinasse no templo; mas ele foi curado pelo poder do Seu Nome, agora que Ele foi glorificado no céu. Pedro não possuía nem prata nem ouro, mas ele podia exercer o poder do Nome de Jesus Cristo Nazareno, e o homem foi instantaneamente curado da maneira mais triunfante. Hoje, muitos Cristãos fervorosos estão mais preocupados em colecionar a prata e o ouro para o apoio da obra do Senhor, e o poder do Nome permanece em grande parte sem uso. Isso é para nossa vergonha.
Por causa de sua deformidade, o coxo ficou sujeito a certas restrições de acordo com a lei; agora a graça havia removido sua deformidade e com ela a restrição, de modo que ele pudesse entrar no templo com liberdade; e apegando-se aos apóstolos não havia como esconder aqueles que haviam sido os instrumentos de sua libertação. Isso deu a Pedro a oportunidade de testemunho. Ele imediatamente colocou a si mesmo e João fora da cena, a fim de que o glorificado Jesus pudesse preenchê-la.
A ousadia de Pedro é notável. Ele acusou o povo de negar “o Santo e o Justo”, embora ele mesmo, poucas semanas antes, tivesse negado seu Senhor. Eles tiveram diante deles “o Príncipe [Autor – ARA] da vida” e “um homicida”, isso é, um destruidor de vida. Eles mataram o Primeiro e escolheram o segundo; todavia, aqu’Ele a Quem mataram, Deus O ressuscitou dentre os mortos, e assim eles foram pegos em flagrante rebelião contra Deus. Além disso, esta “perfeita saúde” foi concedida ao homem coxo no poder do Seu Nome, por fé. Eles não podiam ver a glória de Jesus no céu, mas eles podiam ver o milagre feito em Seu Nome na Terra. A saúde na Terra estava ligada à glória no céu.
O versículo 17 mostra que Deus estava preparado para tratar o terrível crime deles como um pecado de ignorância – como um homicídio não intencional, para o qual é fornecida uma cidade de refúgio, e não como um homicídio voluntarioso. Esta foi uma resposta direta à oração na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Pelo ato pecaminoso deles, Deus havia cumprido Seu propósito quanto ao sofrimento de Cristo e, portanto, ainda havia uma oferta de misericórdia para eles como nação. Aquela oferta que Pedro fez, conforme registrado nos versículos 19-26 do nosso capítulo. Tudo dependia de seu arrependimento e conversão.
Não podemos dizer se Isaías 35:6-7 estava na mente de Pedro enquanto ele falava sobre “os tempos de refrigério” - mas parece que deve ter estado na mente do Espírito que estava falando por meio dele. Quando “o coxo” saltar “como cervos”, então “águas arrebentarão no deserto, e torrentes no ermo”. Mas todo esse refrigério predito por Isaías é para “os resgatados do Senhor” (Is 35:10) e para nenhum outro. Por isso, somente o arrependimento e uma conversão completa trariam esses tempos; se isso acontecesse, Deus enviaria Jesus Cristo para fazer com que essas coisas se cumprissem.
O termo “restauração de todas as coisas” (ARA) tem sido mal utilizado a serviço da ideia de que Deus vai finalmente salvar e restaurar a todos – até o próprio diabo. Mas a passagem diz: “restauração de todas as coisas, das quais Deus falou ... (AIBB). São coisas, não pessoas; e coisas as quais desde o princípio Ele havia falado pelos Seus profetas. Deus vai cumprir todas as palavras e estabelecer em Cristo tudo o que foi derrubado pelas mãos dos homens. Esse tempo não virá até que o próprio Jesus venha, e como Ele é o Profeta de Quem Moisés falou, todas as coisas serão trazidas à uma solução quando Ele vier, e todo aquele que O desconsiderar será destruído dentre o povo. Haverá um tempo de bênção estabelecido, como não houve desde o princípio do mundo.

Com estas palavras, então, Pedro fez a definida oferta da parte de Deus de que, se neste momento houvesse arrependimento e conversão à Deus em uma abrangência nacional, Jesus retornaria e estabeleceria os tempos preditos de bênção. No último versículo do capítulo, ele também acrescentou que, qualquer que fosse a resposta deles, Deus havia levantado Jesus para abençoá-los ao desviá-los de seus pecados. Essas duas coisas que todos precisamos: primeiro, o apagamento judicial de nossos pecados; segundo, sermos desviados dos nossos pecados, de modo que eles percam o poder sobre nós.

ATOS 4

Enquanto lemos os versículos de abertura, encontramos a resposta à essa oferta, dada pelos chefes oficiais da nação. Sendo a oferta baseada na ressurreição do Senhor Jesus, foi particularmente desagradável para os saduceus e para os sacerdotes, que eram daquela seita. Eles a rejeitaram incondicionalmente, prendendo os apóstolos. A obra de Deus, entretanto, prosseguiu em poder convertedor, conforme o versículo 4; e no dia seguinte, quando examinado perante o conselho, Pedro encontrou nova oportunidade para testemunhar, respondendo à pergunta sobre o poder e o Nome em que agira.
O Nome e poder era o de Jesus Cristo o Nazareno, a Quem eles haviam crucificado e a Quem Deus havia exaltado. O Salmo 118:22 havia se cumprido n’Ele, e Pedro passou a expandir o testemunho daquilo que era particular àquilo que é universal. O poder do Nome estava bem diante de seus olhos no caso particular do homem coxo que fora curado, não era menos potente para a salvação dos homens de uma forma universal. A cura física do homem era apenas um sinal da cura espiritual que o Nome de Jesus traz. O desprezado Jesus Nazareno é a única porta para a salvação.
Os versículos 13-22 mostram, de maneira mais impressionante, como o testemunho de Pedro foi justificado. Os apóstolos eram indoutos e ignorantes de acordo com os padrões do mundo, ainda assim haviam estado com Jesus e eram ousados, e isso impressionou o conselho, que desejaria tê-los condenado. Três coisas impediram no entanto: 
  • Eles “nada tinham que dizer em contrário” (v. 14);
  • Eles tiveram que confessar: “por eles foi feito um sinal notório, e não o podemos negar” (v. 16);
  • Eles não acharam “motivo para os castigar” (v. 21). 

Quando os homens desejam desacreditar qualquer coisa, eles geralmente, em primeiro lugar, a negam, caso seja possível. Se isso não for possível, encontrarão algum modo de falar contra ela, deturpando-a, se for necessário. Por fim, se isso não for possível, atacam as pessoas envolvidas na coisa, difamando as pessoas que as defendem e punindo-as. Esses três conhecidos artifícios estavam nas mentes dos homens do conselho, mas todos falharam, pois estavam lutando contra Deus. Eles poderiam apenas ameaçá-los e exigir que eles parassem de proclamar o Nome de Jesus. Pedro repudiou a exigência deles, pois Deus lhes havia ordenado que pregassem em Nome de Jesus, e como Ele era a Autoridade infinitamente superior, eles devem obedecer a Ele e não a eles.
Seguem-se os versículos 23-37 com uma bela imagem da Igreja primitiva em Jerusalém. Liberados pelo conselho, os apóstolos “foram para os seus [para os da sua própria companhia – JND]. Isso nos mostra que, no início, a Igreja era uma “companhia” distinta e separada do mundo, até mesmo do mundo religioso do judaísmo. Este ponto precisa de muita ênfase em dias em que o mundo e a Igreja têm sido misturados em grande parte.
A Igreja primitiva encontrou seu recurso na oração. Na emergência, eles se voltaram para Deus e não para os homens. Eles poderiam ter desejado que o conselho fosse de um caráter menos saduciano, com mais liberalidade e amplitude em seu ponto de vista, mas não se mexeram para obtê-lo; eles simplesmente procuraram a face de Deus, o Governador soberano dos homens.
Em sua oração, eles foram conduzidos à Palavra de Deus. O Salmo 2 lançou sua luz sobre a situação que os confrontava. A interpretação da passagem se referiria aos últimos dias, mas eles viram a aplicação dela que se referia a seus dias. A Igreja primitiva foi marcada pela sujeição à Palavra, encontrando nela toda a luz e orientação de que precisavam. Essa também é uma característica muito importante e instrutiva.
Eles também estavam muito mais preocupados com a honra do Nome de Jesus do que com sua própria tranquilidade e conforto. Eles não pediram o fim da perseguição e oposição, mas que eles pudessem ter ousadia em falar a Palavra, e ter aquele apoio milagroso que exaltaria o Seu Nome. A Igreja é o lugar onde esse Nome é tido como amado.
Como resultado disso, houve uma manifestação excepcional do poder do Espírito. Todos eles foram cheios d’Ele; o próprio edifício onde eles se encontraram foi abalado e sua oração, por causa da especial ousadia, foi instantaneamente respondida. E não apenas isso, mas aquilo que eles não haviam pedido lhes foi concedido; E era um o coração e a alma. Isto naturalmente fluiu do fato de que o “um Espírito” de mente e de coração estava enchendo cada um deles. Se todos os crentes hoje estivessem cheios do Espírito, a unidade de mente e coração os caracterizaria. Esta é a única maneira pela qual tal unidade poderia acontecer.
Além disto, fluía a próxima característica que o versículo 33 menciona. Houve grande poder no testemunho dos apóstolos para o mundo. A Igreja não pregou, mas, cheia de graça e poder, apoiou aqueles que o fizeram. A pregação então, como sempre, estava nas mãos dos que foram chamados por Deus para fazê-la, mas o poder com o qual eles a faziam era em grande parte influenciado pelo estado que caracterizava toda a Igreja.
Os versículos finais mostram que assim como havia um poderoso testemunho fluindo para fora, havia a circulação do amor e do cuidado fluindo por dentro. A comunidade Cristã, mencionada no final do capítulo 2, ainda continuava. A distribuição era feita “segundo a necessidade de cada um” (TB). Não os desejos das pessoas, mas suas necessidades foram satisfeitas, e assim ninguém teve falta. Numa data posterior, Paulo poderia dizer: “estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade” (Fp 4:12), mas nessa época tais experiências eram desconhecidas pelos santos em Jerusalém. Se, ao escapar de tais experiências, eles se beneficiaram mais do que Paulo, que passou por elas, é uma questão deixada em aberto, embora nos inclinemos a pensar que não. De qualquer forma, a ação de Barnabé era muito bonita, e o amor e cuidado encontrados na Igreja deveriam ser conhecidos hoje, embora pudesse haver alguma variação no modo exato de expressá-los.

ATOS 5

Este capítulo abre com um incidente solene que destaca, com um surpreendente realce, um último recurso que caracterizou a Igreja primitiva: houve o exercício de uma disciplina santa pelo poder de Deus. O caso de Ananias e Safira foi excepcional, sem dúvida. Quando Deus institui algo novo, parece ser o Seu modo de assinalar Sua santidade, fazendo um exemplo de qualquer um que a desafie. Ele fez isso com o homem que violou o sábado no deserto (Nm 15:32-36), e também com Acã, quando Israel começava a entrar em Canaã (Js 7:18-26), e assim com Ananias e sua esposa aqui. Mais tarde, na história de Israel, muitos violaram o sábado e tomaram as coisas babilônicas proibidas sem incorrer em penas similares, assim como durante a história da Igreja muitos deles agiram em mentiras ou disseram mentiras sem cair mortos.
O que estava por trás da mentira nesse caso eram os males gêmeos da cobiça e da vaidade. Ananias queria manter parte do dinheiro para si e, ainda assim, ganhar a reputação de ter dedicado tudo ao Senhor, como Barnabé fizera. Tal é a mente da carne, mesmo em um santo. Quantos de nós nunca tiveram obras malignas semelhantes em seus corações? Mas neste caso, Satanás estava trabalhando, e por meio do infeliz casal, ele emitiu um desafio direto ao Espírito Santo presente na Igreja. O Espírito Santo aceitou o desafio e demonstrou Sua presença dessa maneira dramática e inconfundível. Pedro reconheceu que esta era a posição, quando ele falou a Safira de suas ações como um acordo “para tentar o Espírito do Senhor”.
Como resultado, o desafio de Satanás foi transtornado para servir aos interesses do Senhor e de Seu evangelho, como mostram os seguintes versículos. Em primeiro lugar, este episódio colocou grande temor sobre todos que ouviram falar dele, e mesmo sobre a própria Igreja. Aqui está indicado algo que faz muita falta na Igreja hoje – para não falar dos homens em geral. O temor de Deus é algo muito saudável nos corações dos santos e é bastante compatível com um profundo sentimento do amor de Deus. Paulo tinha esse temor à luz do tribunal (2 Co 5:10-11), embora que para o incrédulo isso vá além do temor, para o inegável terror. Um temor piedoso, brotando de um profundo senso da santidade de Deus, deve ser muito desejado.
Então, como a primeira parte do versículo 12, e os versículos 15 e 16 mostram, não houve afrouxamento no poder miraculoso de Deus, ministrado por meio dos apóstolos. De fato, o poder aumentou, de modo que a mera sombra de Pedro provocou prodígios. Dentro de um parêntese (vs. 12-14 – JND e KJV), temos a afirmação de que, depois de tal acontecimento, os homens tinham medo de se unirem à companhia Cristã; no entanto, essa não foi verdadeiramente uma perda, pois impediu qualquer coisa com a natureza de um movimento em massa, que teria varrido uma grande quantidade de falsidade para dentro da Igreja. A verdadeira obra de Deus não foi impedida, como diz o versículo 14. Pessoas podem ser adicionadas à Igreja, sendo meros professos, mas ninguém é “agregado ao Senhor” (ARA), exceto aqueles em quem há uma obra vital de Deus. Assim, o triste negócio de Ananias e Safira foi suplantado para bem, embora que para um observador superficial pudesse parecer um duro golpe para as perspectivas da Igreja.
Tendo Deus trabalhado desta maneira impressionante para abençoar, vemos no versículo 17 o próximo contra-ataque de Satanás. Os sacerdotes e saduceus, cheios de indignação, prendem-nos novamente. Isto é refutado por Deus ao enviar um anjo para abrir as portas da prisão e libertá-los. No dia seguinte, sendo descoberta a liberdade deles, são presos novamente, mas de maneira muito mais suave. As palavras dos sacerdotes confessam o poder com o qual Deus estivera em ação, pois admitem que Jerusalém havia sido enchida com a doutrina; todavia, manifestam a terrível dureza de seus corações ao dizer: “quereis lançar sobre nós o sangue desse Homem”. Ora, eles mesmos disseram: “O Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos” (Mt 27:25). A verdade era que Deus iria levar adiante essa palavra deles e cumpri-la.
A resposta de Pedro foi curta e simples. Eles iriam obedecer a Deus e não aos homens. Então Pedro novamente resumiu seu testemunho e o repetiu. O Espírito Santo e os apóstolos foram testemunhas da ressurreição de Jesus, a Quem eles mataram. Mas Deus O havia exaltado não para ser naquele momento o Juiz, proferindo a condenação sobre suas cabeças culpadas, mas para ser Príncipe e Salvador, concedendo a Israel arrependimento e perdão (remissão) dos pecados. O arrependimento e o perdão são vistos como uma dádiva.
Embora a misericórdia e o perdão continuassem sendo o peso da mensagem de Pedro, sua proclamação só os incitou à fúria. A misericórdia pressupõe pecado e culpa, e eles não estavam dispostos a admitir; por isso eles formaram conselho para matá-los. Satanás é um homicida desde o princípio e, sob sua influência, o homicídio encheu seus corações. No entanto, Deus tem muitas maneiras de derrotar os desígnios malignos dos homens, e neste caso Ele usou a sabedoria terrena do renomado Gamaliel, que teve Saulo de Tarso como seu discípulo.
Gamaliel citou dois casos recentes de homens que se levantaram fingindo ser alguém; o tipo de homem a quem o Senhor mencionou em João 10, quando falou daqueles que “sobem por outra parte”, e que eram apenas ladrões e salteadores. Eles não deram em nada, e Gamaliel pensou que Jesus poderia ter sido um desses falsos pastores, em vez do verdadeiro Pastor de Israel. Se Ele tivesse sido como tais, Sua causa também teria dado em nada. A advertência de Gamaliel produziu efeitos e os apóstolos foram libertados, embora tenham sido açoitados e demandados a que cessassem seu testemunho.
Verdadeiramente, o concílio estava lutando contra Deus, pois os apóstolos se alegraram em seu sofrimento por Seu Nome e diligentemente seguiram em seu testemunho, tanto publicamente no templo quanto em particular em todas as casas.