À medida que abrimos este
capítulo, encontramos Paulo em pé diante deste augusto corpo, e poderíamos ter
esperado que ele desse o mais impressionante e convincente discurso de sua
vida. Em resultado, no entanto, houve um mínimo de testemunho e um máximo de
confusão. O comentário inicial de Paulo ficou amargamente ressentido, embora
possamos ver que era verdade. Uma consciência “boa” é adquirida e mantida à medida que realizamos com sinceridade
e rigidez tudo o que a consciência nos orienta. O fanático com consciência pervertida
ou não iluminada faz as coisas mais escandalosas a fim de preservar sua “boa”
consciência. Assim Paulo tinha agido em seus dias não convertidos, e desde sua
conversão ele tinha com sinceridade observado as advertências de sua
consciência, agora iluminada e retificada. Quão claramente isso nos mostra que
a consciência em si mesma não é um
guia seguro: deve ser iluminada pela Palavra de Deus. Seu valor depende
inteiramente da medida em que é controlada pela Palavra.
Irritado com esta declaração
de abertura, o sumo sacerdote ordenou que Paulo fosse ferido na boca, violando
assim a lei que estipulava que um ofensor só deveria ser espancado depois de um
julgamento apropriado, e somente de maneira apropriada (Dt 25:1-3). Essa
injustiça manifesta levou Paulo a uma afiada réplica; muito apropriada, mas não
admissível como dirigida ao sumo sacerdote. Tendo o conselho sido convocado
desta maneira apressada e informal, provavelmente não havia nada em seu traje
para distingui-lo; contudo, quando o erro foi apontado, Paulo imediatamente
reconheceu sua culpa e citou a passagem que proibia o que ele havia feito. Ele
foi incapaz de perguntar com toda a certeza: “quem dentre vós Me convence de pecado?” como o seu Senhor tinha
feito.
Houve imediatamente um
movimento extremamente astuto da parte de Paulo. Ele se apresentou como
fariseu, e como sendo questionado sobre a esperança da ressurreição. Sem dúvida,
ele era fariseu por nascimento e formação inicial e, sem dúvida, a ressurreição
está no próprio fundamento do evangelho. Sua exclamação teve o efeito que ele previu.
Ele ajuntou os fariseus em seu auxílio, enquanto antagonizava violentamente aos
saduceus. Eles eram todos homens partidários, vendo tudo do ponto de vista do
partido. Assumindo que ele fosse do grupo deles, os fariseus penderam em seu
favor. A verdade e a justiça não valiam com eles, mas o partido contava. O
mesmo tipo de coisa é muito comum hoje em dia, e os Cristãos não estão imunes a
isso; então vamos aceitar o aviso que nos é transmitido aqui.
Por todo o livro de Atos, o partido
dos saduceus aparece como o principal opositor do evangelho. Por causa da sua
visão materialista, negavam a ressurreição. Aqui temos nosso último vislumbre
deles enquanto protestam furiosamente contra a súbita mudança de posição dos
fariseus, e usam um tal vigor físico que Paulo poderia ter sido feito em
pedaços. Sua violência derrotou seu propósito, pois forçou o tribuno a
intervir, e Paulo foi, pela segunda vez, resgatado das mãos de seu próprio
povo.
Quão lindo é o versículo 11!
Não nos é dito nada sobre os sentimentos de Paulo, mas da mensagem do Senhor
para ele de bom ânimo certamente se deduz que ele estava deprimido. Não podemos
deixar de pensar que todo esse episódio de Jerusalém havia caído abaixo do alto
padrão que caracterizara todo o seu serviço anterior; todavia ele certamente
testificou de seu Senhor. Seu gracioso Mestre fixou-se nesse fato, reconheceu-o
e disse-lhe que ainda estava por prestar testemunho em Roma – Jerusalém, o
centro religioso, Roma, o centro imperial e governamental da Terra daqueles
dias. Que conforto para o espírito de Paulo!
No dia seguinte, houve a
conspiração da parte de mais de quarenta homens para matar Paulo. A natureza da
maldição sob a qual eles se vinculam testemunha a ferocidade de seu ódio, de
modo que parece que eles eram do grupo dos saduceus que havia sido privado de
sua vítima no dia anterior. Os chefes dos sacerdotes também eram daquele
partido, e assim não havia nada contrário envolvido nesse negócio. Eles
deveriam fingir que queriam examiná-lo ainda mais, e os quarenta homens estavam
prontos para matá-lo.
Novamente encontramos a mão
de Deus frustrando suas artimanhas. A história – como sempre nas Escrituras – é
contada com brevidade e contenção. Descobrimos que Paulo tinha uma irmã e um
sobrinho em Jerusalém, mas como o jovem conseguiu informações sobre o plano que
não nos é dito. Deus viu, contudo, que chegou aos seus ouvidos, embora tenha
sido traçado apenas algumas horas antes, e também lhe deu coragem para
revelá-lo. Por ele ter tido acesso tão fácil ao tio, e que o pedido de Paulo
para que o sobrinho tivesse acesso ao tribuno encontrasse uma resposta tão
cortês, conseguimos traçar o predomínio de Deus; embora muito
provavelmente o comportamento ultrajante dos judeus tenha provocado uma reação
na mente do tribuno em favor de Paulo. Como resultado, ele não apenas escutou o
jovem, mas o aceitou sem hesitar, e imediatamente tomou medidas para frustrar a
conspiração.
O restante do capítulo nos dá
um vislumbre da eficiência que marcou o sistema militar romano. O tribuno agiu
com a maior prontidão em sua decisão de remeter Paulo ao governador civil em Cesareia.
Ele cuidou também de não correr riscos. Ele conhecia a fúria vingativa dos
judeus quando questões religiosas estavam em jogo; então ele não cometeu o erro
comum de subestimar o perigo. A força militar que tomou conta de Paulo deve ter
chegado a praticamente quinhentos homens, uma proporção de doze para um contra
possíveis assassinos. Toda consideração foi dada ao prisioneiro, até mesmo ao
ponto de fornecer animais para ele montar.