Quatorze anos haviam se
passado desde a primeira breve visita de Paulo a Jerusalém, três anos depois de
sua conversão, conforme registrado em Atos 9:26-29 e em Gálatas 1:18. Todo o capítulo
2 de Gálatas nos fornece uma visão notável do que estava no centro da discussão
iniciada em Antioquia e concluída em Jerusalém; nada menos do que a verdade e liberdade do evangelho.
Descobrimos também que, embora em nosso capítulo diga “os irmãos resolveram” (TB) que Paulo e outros deveriam ir a
Jerusalém, o próprio Paulo subiu “por
revelação”; isto é, o Senhor revelou-lhe distintamente que ele deveria ir.
Também descobrimos que Paulo foi levado a adotar uma linha muito firme no
assunto; não cedendo àqueles que se opunham a ele, “nem ainda por uma hora”; tendo Tito, que era grego, com ele, e
recusando-se a ter qualquer coação sobre ele quanto a ele ser circuncidado. A
epístola de Gálatas mostra claramente que Paulo estava plenamente seguro de
qual era a mente de Deus nesta questão, mas que lhe foi revelado que ele
deveria consentir que fosse a questão encaminhada a Jerusalém para ser
resolvida ali.
Nisto, é claro, vemos a
sabedoria e o poder de Deus. Se Paulo tivesse tentado resolver a questão e agir
sobre sua própria autoridade apostólica em Antioquia, poderia facilmente ter
havido uma brecha entre ele e os outros apóstolos. Como aconteceu, a decisão em favor da liberdade
concedida aos gentios convertidos foi tomada no exato lugar onde ela poderia teria
ido para o outro lado se Deus não tivesse controlado por Seu Espírito. Mas
ao dizer isso, estamos antecipando o assunto.
Na jornada à Jerusalém, as
novas da graça de Deus para os gentios causaram grande alegria aos irmãos, mas
em Jerusalém a questão logo foi levantada. Aqueles que contendiam pela
observância da lei pelos convertidos dentre os gentios eram crentes que pertenceram
à seita dos fariseus. Presentemente eles mantiam seu farisaísmo, embora
crentes. Isto ocasionou uma reunião formal dos apóstolos e anciãos para entrarem
na questão como diante de Deus.
Houve muita “contenda [discussão – JND]”, e
então Pedro fez um pronunciamento decisivo, referindo-se ao caso de Cornélio,
no qual ele próprio estivera envolvido. Ele apontou que o Deus conhecedor do
coração deu testemunho a esses gentios convertidos, dando-lhes o Espírito
Santo, assim como Ele O havia dado a eles (judeus) no dia de Pentecostes. Esses
gentios tinham sido purificados, como
a visão do grande lençol indicava, e Deus havia operado a purificação em seus
corações por fé, e não como uma
simples purificação cerimonial. O fato era que Deus já havia decidido o ponto a
princípio pelo que Ele fez no caso de Cornélio. Agora podemos entender por que
tanto espaço é dedicado a esse caso em Atos; porque esta é a terceira vez que
temos isso diante de nós.
A lei era um jugo que Deus
havia colocado sobre o pescoço do judeu, e ambos, eles e seus pais, acharam seu
peso esmagador. Esforçar-se para impô-la a pescoços que nunca haviam sido
submetidos a ela por Deus, seria tentar o próprio Deus. A graça do Senhor Jesus
Cristo era a única esperança de salvação, seja para judeus ou gentios. A
maneira como o versículo 11 coloca a questão é bastante notável. Não é, “eles, gentios, serão salvos como nós,
judeus”, mas “seremos salvos assim como
eles” (TB). A salvação dos gentios não poderia estar em qualquer outro terreno
além do da graça; e o judeu deve entrar nesse terreno também.
Não deixemos de perceber o
belo contraste entre Mateus 11:29 e o versículo 10 de nosso capítulo. O jugo esmagador
da lei não deve ser colocado sobre os nossos pescoços gentios, mas por causa
disso, não somos deixados sem jugo algum. Nós tomamos sobre nós o jugo leve e suave
do Bendito Jesus, que Se tornou para nós o Revelador do Pai.
Das palavras de Pedro, é
evidente quão profundamente ele aprendeu a lição que lhe foi ensinada em
conexão com Cornélio. Ele apontou como a coisa havia sido estabelecida ali; e
assim o caminho foi limpo para Barnabé e Paulo repetirem como Deus havia
trabalhado em poder miraculoso entre os gentios. Barnabé é agora mencionado
primeiro, pois evidentemente ele, livre de qualquer ciúme ou inveja, poderia
falar mais livremente das coisas feitas, principalmente por meio de Paulo. O
testemunho deles foi que o que Deus fez na
prática por meio deles concordava com
o que Ele estabeleceu em princípio por meio de Pedro.
Tendo Pedro, Barnabé e Paulo acabado
seus discursos, falou Tiago. Ele parece ter tido um lugar de responsabilidade
especial em Jerusalém, e Gálatas 2:12 indica que ele era notado como tendo
opiniões estritas quanto à medida de associação que era permissível na Igreja
de Deus entre judeus e gentios. No entanto, ele endossou a declaração de Pedro
e, em seguida, apontou que as Escrituras do Velho Testamento a apoiavam. Amós
previra como dias viriam quando o Nome de Deus seria chamado sobre os gentios.
Se nos voltarmos para sua profecia, podemos ver que ele tinha as condições do
Milênio em vista, de modo que Tiago não citou suas palavras como se estivessem sendo cumpridas, mas como estando de acordo com o que acabavam de ouvir.
As palavras em que Tiago
resumiu o testemunho de Pedro são dignas de nota especial. “Deus visitou os gentios, para tomar deles [de entre eles – JND] um
povo para o Seu Nome”. Este é o programa de Deus para a presente
dispensação. O evangelho não é enviado entre as nações com o objetivo de
convertê-las como nações, e assim fazer da Terra um lugar apropriado para
Cristo retornar, mas para converter indivíduos, que assim são tirados das
nações para serem Sua possessão especial – “um
povo para o Seu Nome”. Este é um fato da natureza mais fundamental. Se
estivermos errados neste ponto, estaremos errados quanto ao caráter total da
dispensação em que vivemos. As nações somente serão subjugadas quando os juízos de Deus estiverem na Terra, como
Isaías 26:9 diz tão claramente. O evangelho sai pela Terra para que uma eleição de judeus e gentios seja
convocada; e essa eleição é a Igreja de
Deus.
Tendo dito isso, Tiago deu o
que ele julgou ser a mente de Deus quanto ao assunto em questão. Sua “sentença” (KJV), ou “julgamento” (JND), era que o jugo da
lei não deveria ser colocado no pescoço dos Cristãos gentios, mas que eles
meramente deveriam ser instruídos a observar certas restrições em assuntos
sobre os quais eles tinham sido notoriamente descuidados. A idolatria e
fornicação eram conhecidas como mal, mesmo antes da lei ser dada, e assim
também era o comer sangue, como mostra Gênesis 9:4. Deus sabe desde o início
tudo o que Ele irá desenvolver com o passar do tempo. O chamamento e eleição
dos gentios era novo para eles, mas não para Deus. Era responsabilidade deles
seguir em frente com Deus; e quanto a Moisés, as suas palavras eram bem
visíveis em todas as sinagogas todos os sábados.
O julgamento que Tiago
expressou trouxe todo o conselho com ele. Eles tiveram diante deles primeiro, o
testemunho de Pedro sobre o que Deus havia feito em conexão com Cornélio:
segundo, por meio de Barnabé e Paulo, um relato dos atos de Deus durante sua
jornada missionária: terceiro, a voz das Escrituras, citada por Tiago. O que Deus disse concordava com o que Deus
havia feito. Eles haviam se reunido para buscar Sua mente e, por Sua Palavra
e Suas ações, eles claramente a discerniram; e todos eram de um acordo. Assim,
uma questão difícil, que poderia ter dividido toda a Igreja, foi resolvida e
terminou por reuni-los juntamente. Quando Barnabé e Paulo subiram a Jerusalém,
foi como homens cujo serviço estava aberto a desafios e suspeitas. Quando
saíram, eram portadores de uma carta na qual eram citados como “nossos amados Barnabé e Paulo”.
Eles também foram mencionados
como “homens que já expuseram [entregaram
– JND] suas vidas pelo nome de nosso Senhor
Jesus Cristo”. Expor a própria vida é arriscar, pois um apostador arrisca
seu dinheiro em um arremesso de dados: entregar a própria vida é aceitar a
morte como uma certeza e não como um risco. Qualquer pessoa que entrega sua
vida dessa maneira deve ser estimado como amado na Igreja de Deus. Esta carta
dos crentes judeus aos crentes gentios respira por meio de um espírito de amor
e companheirismo e unidade. Eles foram capazes de dizer: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós”; Tão certo eram eles que o
Espírito Santo havia governado sua decisão. Colocar os gentios sob a lei teria
o efeito de “perturbar” suas almas.
Tudo isso é muito importante
para nós hoje. O mesmo tipo de problema surgiu entre os Gálatas um pouco mais
tarde, e a tentativa de misturar a lei e a graça é frequentemente vista em
nossos dias. Não pode ser feita sem destruir a plenitude da graça e subverter
as almas daqueles que absorverem tal ensinamento. Os versículos 30-33 do nosso
capítulo mostram como a vindicação da graça e a liberdade que ela traz
contribuíram para o estabelecimento e o gozo dos crentes gentios em Antioquia.
Também Judas e Silas, os delegados de Jerusalém, exerceram seu ministério
profético e fortaleceram os irmãos. Isso mostra quão livremente aqueles que
tinham o dom eram autorizados a exercê-lo em qualquer lugar, e na presença de
homens cujo dom pode ser em muitos aspectos superior ao seu próprio – pois
Paulo e Barnabé estavam agora de volta a Antioquia.
Pouco depois, Paulo propôs a
Barnabé que eles fizessem outra jornada com o trabalho pastoral em vista. As
palavras do versículo 36 respiram o espírito de um verdadeiro pastor, que
deseja ver como os crentes estão se saindo. O bem-estar de suas almas é o
grande ponto diante dele. O triste foi que esta excelente proposta tornou-se a
ocasião de uma brecha entre esses dois servos devotados do Senhor. Barnabé
propôs que Marcos, seu sobrinho, voltasse a acompanhá-los. Paulo, lembrando-se
de sua deserção inicial, foi contra, e essa diferença de julgamento gerou um
sentimento tão caloroso que eles se separaram, incapazes de trabalhar juntos.
Barnabé foi para Chipre, onde sua primeira jornada havia começado, e Paulo para
a Ásia Menor, onde aquela jornada se estendera. Paulo encontrou um novo
companheiro em Silas e partiu depois que os irmãos os encomendaram à graça de
Deus. Parece que Barnabé saiu apressadamente, antes que os irmãos tivessem
tempo de orar por ele.
Fica-nos mal julgar esses
servos eminentes de nosso Senhor, mas o registro certamente parece indicar que
Barnabé foi influenciado demais pelo relacionamento natural, e que a simpatia
dos irmãos estava com Paulo. Ainda assim, a sensação de calor e disputa estava
entre eles, e o Espírito de Deus não esconde isso. Não devemos conceber Paulo
como outro além de um homem de paixões semelhantes a nós mesmos. Ele não era
perfeito, como era seu Senhor.