Saulo estava ainda cheio de
zelo furioso e perseguidor quando o Senhor o interceptou no caminho de Damasco,
e Se revelou a ele em um resplendor de luz celestial, que brilhou não apenas ao
redor dele, mas também em sua consciência. Podemos discernir na narrativa as
características essenciais que marcam toda conversão verdadeira. Havia a luz
que penetra na consciência, a revelação do Senhor Jesus ao coração, a convicção
do pecado nas palavras: “Por que Me
persegues?” e o colapso de toda a oposição e importância própria nas
humildes palavras: “Senhor, que queres
que eu faça?” (AIBB) Quando Jesus é descoberto, quando a consciência é
convencida do pecado, quando há humilde submissão a Jesus como Senhor, então há
uma conversão verdadeira, embora haja muito que a alma ainda precise aprender.
Os tratamentos do Senhor eram intensamente pessoais para Saulo, pois seus
companheiros, embora maravilhados, não entendiam nada do que havia acontecido.
Por essa tremenda revelação
do Senhor, Saulo estava literalmente cego para o mundo. Levado para Damasco,
ele passou três dias que nunca esqueceria; dias em que o significado da
revelação aprofundou em sua alma. Estando cego, nada distraiu sua mente, e seus
pensamentos nem foram desviados para comida ou bebida. Como preliminar ao seu serviço,
Ezequiel sentou-se entre os cativos em Quebar e ficou “ali sete dias, pasmado no meio deles” (Ez 3:15). Saulo ficou
espantado em Damasco por apenas três dias, mas suas experiências foram de uma
ordem muito mais profunda. Podemos ter um vislumbre delas lendo 1 Timóteo
1:12-17. Ele ficou pasmado com sua própria culpa colossal como o “principal” dos pecadores, e ainda mais
com a excedente abundância da graça do Senhor, de modo que ele obteve
misericórdia. Naqueles três dias ele evidentemente passou por um processo
espiritual de morte e ressurreição. As fundações foram colocadas em sua alma
daquilo que mais tarde ele expressou assim: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive
em mim” (Gl 2:20).
Durante esses três dias Saulo
teve uma visão de um homem chamado Ananias entrando e colocando as mãos sobre
ele para que pudesse receber sua visão, e no final desses dias a visão se
materializou. Ananias chegou, fazendo o que lhe foi dito, e dizendo a Saulo que
ele era apenas o mensageiro do Senhor – Jesus mesmo, e que ele não apenas iria receber
sua visão, mas que seria cheio do Espírito Santo. Nesse tempo Saulo era um crente,
pois o Espírito é dado apenas para os crentes.
O trabalho essencial na alma
de Saulo foi realizado, um servo humano é usado pelo Senhor. Duas coisas sobre
esse servo são dignas de nota. Primeiro, ele era apenas “um certo discípulo”, evidentemente sem destaque especial. Era
apropriado que o único homem que de alguma forma ajudasse Saulo fosse muito
humilde. Saulo tinha sido muito proeminente como adversário e logo seria muito
proeminente como servo do Senhor. Ele foi ajudado por um discípulo que era indistinto
e reservado, mas que estava perto o suficiente do Senhor para receber Suas
instruções e conversar com Ele. Muitas vezes é assim nos caminhos de Deus. Em
segundo lugar, Ananias habitava em Damasco, e assim foi um daqueles contra os
quais Saulo estava respirando ameaças e mortes. Então, um daqueles a quem Saulo
teria matado foi enviado para chamá-lo, “irmão
Saulo”, para abrir os olhos, e para que ele pudesse ser cheio do Espírito
Santo. A maldade de Saulo era correspondida com bondade desta maneira constrangedora.
Os dias de cegueira de Saulo,
tanto física como mental, estavam agora terminados: ele foi batizado em Nome
daqu’Ele que antes desprezava e odiava e se relacionava com as próprias pessoas
que ele pensara destruir, pois ele havia se tornado um deles. Ele havia sido
chamado como “um vaso escolhido”, de
maneira tão direta que seu serviço começou imediatamente. Jesus havia sido
revelado a ele como o Cristo, e como o Filho de Deus, então ele O pregou assim
e provou pelas Escrituras que Ele era o Cristo, para confundir seus antigos
amigos. Os amigos, porém, rapidamente se tornaram seus amargos inimigos e tomaram
conselho em matá-lo, mesmo que não muito antes ele ter pensado em matar os
santos. Ele havia planejado entrar em Damasco com certa dose de pompa como aquele
que vinha com plenos poderes da hierarquia em Jerusalém. Na verdade, ele entrou
como um homem humilde e cego; e a deixou de maneira constrangedora – encolhido
num cesto, como um fugitivo do ódio judaico.
Desde o início, Saulo teve
que provar por si mesmo as mesmas coisas que estivera infligindo aos outros.
Chegando de volta a Jerusalém, os discípulos desconfiaram dele, como era muito
natural, e a intervenção de Barnabé era necessária antes que eles o recebessem.
Barnabé pôde atestar a intervenção do Senhor e a conversão de Saulo, e agiu
como uma carta de recomendação dele. Em Jerusalém, Saulo testemunhou
corajosamente e entrou em conflito com os gregos, possivelmente os mesmos
homens que tinham sido tão responsáveis em relação à morte de Estêvão. Agora
eles matariam o homem que segurou as roupas daqueles que mataram Estêvão. Em
tudo isso podemos ver o funcionamento do governo de Deus. O fato de o Senhor
ter demonstrado uma misericórdia tão surpreendente em sua conversão, não o
eximiu de colher dessa maneira governamental aquilo que ele havia semeado.
Ameaçado novamente de morte, Saulo
teve que partir para Tarso, sua cidade natal. Pode-se imaginar de onde veio
aquela visita à Arábia, a qual ele escreve em Gálatas 1:17. Achamos que foi
provavelmente durante os “muitos dias”,
dos quais fala o versículo 23 do nosso capítulo, pois ele nos diz que retornou “outra vez a Damasco”. Se isto é assim,
a fuga de Damasco sobre o muro ocorreu após seu retorno da Arábia. Seja como
for, foi a sua partida para a distante Tarso, que inaugurou o período de
descanso e edificação para as igrejas, o que levou a uma multiplicação de seus
números.
No versículo 32, voltamos às
atividades de Pedro, para que possamos ver que o Espírito de Deus não deixou de
trabalhar por meio dele enquanto trabalhava tão poderosamente em outros
lugares. Houve, em primeiro lugar, um grande trabalho em Lída por meio do levantamento
do homem paralisado. Então, em Jope, Pedro foi usado para trazer Dorcas de
volta à vida, e isso levou muitos naquela cidade a crer no Senhor. Isso também
levou Pedro a ficar muito tempo na casa de Simão, o curtidor.
Enquanto isso, também o Espírito
de Deus estivera em ação no coração de Cornélio, o centurião romano, o qual era
marcado como fruto da piedade e de temor de Deus, com esmola e oração a Ele.
Agora chegara a hora de trazer este homem e seus amigos de mesma opinião para a
luz do evangelho. Ora a Pedro foram dadas “as
chaves do reino dos céus” (Mt 16:19); assim como ele usou as chaves no dia
de Pentecostes para admitir a eleição entre os judeus, agora é sua vez de admitir
esta eleição entre os gentios. Este capítulo relatou como Deus chamou e
converteu o homem que seria o apóstolo dos gentios, o próximo conta como Pedro
foi libertado de seus preconceitos e levou a abrir a porta da fé aos gentios,
abrindo assim o caminho para o ministério subsequente do apóstolo Paulo.