Sua história começou com Deus
chamando Abraão de seu antigo lugar e associações, para que ele pudesse ir para
a terra da escolha de Deus e ali ser feito uma grande nação. Isso é mostrado em
Gênesis 12:1-3, e foi um evento que marcava uma época, como é evidente quando
notamos que um período de tempo mais longo é condensado em Gênesis 1-11, do que
o período expandido para preencher todo o resto do Velho Testamento. O chamamento
de Abraão marcou um novo início nos caminhos de Deus com a Terra, e com esse
novo início, Estêvão começou seu discurso.
Gênesis nos diz que Jeová apareceu a Abraão, mas Estêvão o conheceu e falou d’Ele em uma nova luz. O Jeová que apareceu a Abraão era o
Deus de glória, o Deus de cenas muito mais gloriosas do que as que podem ser
proporcionadas por este mundo, mesmo no seu melhor e mais belo. Isto é, sem
dúvida, o que explica a fé de Abraão abraçando as coisas celestiais como é
falado em Hebreus 11:10-16. Chamado pelo Deus de glória, ele pelo menos teve
vislumbres da cidade e do país onde a glória habita. Nesta alta nota, Estevão
começou e terminou, como sabemos, com Jesus na glória de Deus.
A principal tendência de seu
notável discurso era evidentemente trazer ao povo a convicção do modo como seus
pais e eles tinham sido culpados de resistir às operações de Deus por Seu
Espírito durante toda a sua história. Ele se concentra particularmente no que
aconteceu quando Deus havia levantado servos para instituir algo novo em sua
história. Houve uma série de novos começos, de maior ou menor importância. O primeiro
havia sido com Abraão, mas depois seguiram José, Moisés, Josué, Davi e Salomão;
todos a quem ele se refere, embora dando muito mais atenção aos três primeiros
do que aos três seguintes. A nenhum destes eles realmente corresponderam, e José
e Moisés foram definitivamente rejeitados logo de início. Ele termina com a
sétima intervenção, que colocou todas as anteriores na penumbra – a vinda do
Justo – e a Ele eles tinham acabado de matar.
Estêvão deixou bem claro que
os líderes judeus de seus dias estavam apenas repetindo, de forma ainda pior, o
pecado de seus antepassados. Os patriarcas venderam José ao Egito porque foram “movidos de inveja”; e Mateus registra
os esforços de Pilatos para libertar Jesus, “porque sabia que por inveja O haviam entregado”. Assim também foi com
Moisés; as palavras que fizeram com que ele fugisse: “Quem te pôs por príncipe e juiz sobre nós?” (Êx 2:14 – ARA) foi
proferida por um de seus irmãos e não por um egípcio. A rejeição veio de seu
próprio povo e não dos de fora. Assim também foi com Jesus.
Êxodo 2 não nos dá a
percepção da reputação e maestria de Moisés no final de seus primeiros quarenta
anos como é dado no versículo 22 do nosso capítulo. Ele era um homem de conhecimento,
oratória e ação, quando sentiu em seu coração identificar-se com seu próprio
povo, que era o povo de Deus. Tendo dado esse passo, deve ter chegado a ele
como um choque terrível o ser recusado por eles. Diante daquelas palavras, ele
fugiu. Ele não temeu a ira do rei, como Hebreus 11:27 nos diz, mas ele não
suportou essa recusa. Ele havia agido na consciência de seus próprios poderes
excepcionais, e agora precisava de quarenta anos de instrução divina no lado de
trás do deserto para aprender que seus poderes não eram nada e que o poder de
Deus era tudo. Em tudo isso, Moisés está em contraste com o nosso Senhor,
embora ele O tipifique na rejeição que teve que suportar.
Este Moisés foi novamente
rejeitado pelos pais deles, quando ele os tirou do cativeiro levando-os ao
deserto. Ao rejeitá-lo, eles realmente rejeitaram a Jeová, e se voltaram para a
idolatria de um tipo muito grosseiro. Mesmo no deserto, e não somente quando na
terra, eles foram negligentes com os sacrifícios de Jeová e se adulteraram com ídolos,
abrindo assim o caminho para o cativeiro babilônico. Deus ainda havia levantado
Davi, e então Salomão construiu a casa. Ora na casa eles se gabavam (veja
Jeremias 7:4) como se a mera posse desses edifícios garantisse tudo, quando
realmente Deus habitava no Céu dos céus, muito acima dos edifícios mais deslumbrantes
da Terra.
As palavras finais de Estêvão
– versículos 51-53 – são marcadas por grande poder. Elas são como um apêndice
às palavras do próprio Senhor, registradas em Mateus 23:31-36, levando a acusação
à sua terrível conclusão na traição e morte do Justo. A posição deles diante de
Deus estava baseada na lei e, embora a tivessem recebido pela ordenação de
anjos, não a haviam guardado. A lei quebrada pela flagrante idolatria e o
homicídio do Messias; houve as duas grandes denúncias na acusação contra os
judeus, e ambas são proeminentes nas palavras finais de Estêvão.
O Espírito Santo, pelos
lábios de Estêvão, havia virado completamente a mesa sobre seus opressores, e
eles se viram acusados, como se estivessem no banco dos réus, em vez de estarem
sentados no banco dos juízes. A própria repentinidade com que Estêvão abandonou
sua narrativa histórica e lançou a acusação de Deus contra eles, deve ter
acrescentado tremendo poder às suas palavras. Elas penetraram em seus corações
e os agitaram à fúria.
A única pessoa evidentemente calma
era Estêvão. Cheio do Espírito, ele teve uma visão sobrenatural da glória de
Deus, e de Jesus naquela glória, e testificou imediatamente do que viu.
Ezequiel tinha visto “a semelhança de um
trono” e “a semelhança de um homem,
no alto, sobre ele” (Ez 1:26), mas Estevão não via uma mera “semelhança”, mas sim o próprio HOMEM,
em pé à direita de Deus. Jesus, uma vez crucificado, é agora o Homem da mão
direita de Deus: Ele é o poderoso Executivo, por Quem Deus administrará o
universo!
Em seu discurso Estêvão havia
salientado que embora José tivesse sido recusado por seus irmãos, ele se tornou
o salvador deles e, finalmente, todos tiveram que se curvar perante ele. Ele
também lembrou a eles de que, embora Moisés tenha sido inicialmente rejeitado,
ele finalmente se tornou príncipe e libertador de Israel. Agora ele testifica
uma coisa similar, mas muito maior em relação a Jesus: o Justo que eles haviam matado
tornou-Se seu Juiz e, finalmente, para aqueles que O recebem, seu grande e
final Libertador. Em sinal disso, Ele estava em glória, e Estêvão O viu.
Totalmente incapazes de refutar
ou resistir às suas palavras, os líderes judeus apressaram-se a dar a morte a Estêvão,
cumprindo assim as palavras do Senhor, registradas em Lucas 19:14, quando os
cidadãos, odiando o homem nobre que partiu, enviaram uma mensagem após ele
dizendo: “Não queremos que Este reine
sobre nós”. Jesus ainda estava “em
pé” (v. 55 – TB) em glória, pronto para cumprir o que Pedro havia dito em
Atos 3:20, se eles tivessem se arrependido. Eles não se arrependeram, mas deram
uma violenta recusa ao apedrejar Estêvão e enviá-lo após seu Mestre.
Proeminente em conexão com este ato perverso estava um jovem chamado Saulo, que
consentiu com a morte de Estevão, e agiu como um tipo de superintendente em sua
execução. Assim, onde a história de Estevão termina, a história de Saulo
começa.
Estevão, o primeiro mártir Cristão,
encerrou sua curta, mas notável carreira à semelhança de seu Senhor. Cheio de
Espírito, sua visão foi preenchida com Jesus em glória. Ele não tinha mais nada
a dizer aos homens; Suas últimas palavras foram dirigidas ao seu Senhor. Ao
Senhor, ele encomendou o seu espírito e, assumindo a atitude de oração, desejou
misericórdia por aqueles que o matavam. Quem poderia ter antecipado uma
resposta tão surpreendente como foi dada por seu exaltado Senhor na conversão
de Saulo, o arqui-homicida? A oração do Senhor Jesus na cruz pelos Seus homicidas
foi respondida pelo envio do evangelho, começando em Jerusalém; a oração de
Estêvão foi respondida com a conversão de Saulo, do que o próprio Saulo nunca se
esqueceu, como é mostrado em Atos 22:20.