Ainda vemos a mão protetora
de Deus estendida sobre Paulo e seus companheiros quando eles desembarcaram em
Malta. Embora os habitantes fossem “bárbaros”
de acordo com os pensamentos romanos, eles mostraram uma bondade excepcional ao
grupo naufragado, e as coisas estavam tão dominadas que logo descobriram que um
dos visitantes naufragados não era uma pessoa comum. Paulo estava ocupado,
fazendo o que podia para ajudar, quando uma víbora mordeu sua mão. Os ilhéus
supersticiosos colocaram sua interpretação sobre isso, mas quando o esperado
não aconteceu, mudaram de ideia, pulando para a conclusão oposta. A superstição
nunca chega a conclusões corretas. Para Paulo, sem dúvida, foi um acontecimento
muito menor, visto que ele havia passado pela longa lista de aventuras que
catalogou em 2 Coríntios 11:23-28. E quando ele escreveu essa lista, ainda
estava inacabada. Ele não passara, por exemplo, pelo naufrágio do qual estivemos
lendo. Ele havia naufragado três vezes antes que isso acontecesse. Não há
muitos que sobreviveram a quatro naufrágios, nos aventuramos a pensar, mesmo
que fossem velejadores profissionais, o que ele não era.
Paulo teve oportunidade de
recompensar o chefe da ilha orando e curando o pai dele, tendo em vista o gentil
interesse que tivera por todos eles em suas necessidades. Não lemos sobre
qualquer testemunho que Paulo tenha prestado, mas sua oração deve ter mostrado
a todos que o poder de cura que ele exercia não era dele, mas ligado a Deus. Os
ilhéus, achando que o poder de Deus estava no meio deles, não demoraram a
buscá-lo para cura de seus corpos, e ao procurá-lo, a encontraram. Tudo isso,
na providência de Deus, levou a um tempo de conforto após a quinzena de terrível
teste, e até mesmo a um tempo de honra, e isso durou três meses. O apóstolo havia
registrado: “Sei estar abatido, e sei
também ter abundância” (Fp 4:12). Estes três meses provaram ser um tempo de
abundância.
O mesmo pode ser dito do resto
da jornada, quando foi retomada. Tudo correu favoravelmente e chegando a
Putéolos, e, encontrando irmãos ali que imploravam a Paulo que ficasse com eles
por uma semana, a visita foi organizada de forma feliz. A essa altura,
evidentemente, o centurião no comando havia tomado a medida de seus
prisioneiros e estava disposto a conceder-lhe notável liberdade. Na viagem
terrestre também, irmãos vieram ao seu encontro, tendo ouvido falar de sua
aproximação, e isso foi um grande alento para Paulo. Embora fosse homem
espiritual, e completamente em contato com Deus e dependente d’Ele, ele não
estava acima de agradecer a Deus e se encorajando no amor e na comunhão dos
santos, cuja estatura espiritual pode ter estado muito abaixo da sua. É
impressionante ver isso e muito encorajador para nós. Tenhamos muito cuidado
para não desprezar ou mesmo subestimar o valor da comunhão dos santos.
Assim Paulo chegou a Roma.
Suas circunstâncias eram muito diferentes daquelas que ele tinha visualizado
quando escreveu antes relatando o que pretendia fazer (veja Romanos 15:22-32),
mas ele tinha chegado a eles com
certa dose de alegria pela vontade de Deus, e ele foi marcado pela “plenitude
da bênção do evangelho de Cristo”. A mão de Deus ainda estava sobre ele,
pois, apesar de ser um prisioneiro, ele foi autorizado a habitar sozinho sob
guarda, e isso deu-lhe certa liberdade de serviço e testemunho.
Apenas três dias depois de
sua chegada, ele foi capaz de reunir o chefe da colônia judaica em Roma e
colocar algo de seu caso diante deles. Ele deixou claro que não desejava ser um
acusador de sua nação, mas que toda sua ofensa aos olhos dos judeus estava
conectada com a “esperança de Israel”;
isto é, o Messias há muito tempo prometido. Os judeus, por sua vez, professavam
ignorância a respeito de seu caso, mas sabiam do Cristo que Paulo pregava e que
ser um Cristão significava para eles pertencerem a uma “seita ... que em toda parte
se fala contra ela”. Em toda parte,
note-se; não só entre os judeus, mas também entre os gentios. O Cristianismo
genuíno nunca foi popular e nunca será. Ele corta profundamente contra a fibra da
natureza humana.
Ainda assim, professavam o
desejo de ouvir o que Paulo tinha a dizer; e assim um dia foi combinado, muitos
vieram, e por um dia inteiro ele foi capaz de expor e testificar e persuadir.
Seu tema era o reino de Deus e Jesus, como aqu’Ele em Quem esse reino é
centrado e estabelecido; e tudo o que ele tinha a dizer baseava-se na lei de
Moisés e dos profetas, pois todos haviam sido tipificados e preditos. Os três verbos
são dignos de nota. Primeiro ele expôs
as Sagradas Escrituras, mostrando o que elas tinham a dizer e esclarecendo sua
força. Então ele testificou de Jesus,
relacionando sem dúvida o que ele conhecia pessoalmente de Sua glória no céu, e
mostrando exatamente como Ele havia cumprido tudo o que as Escrituras haviam
dito a respeito de Seu advento em humilhação. Por fim, ele se propôs a convencer seus ouvintes da verdade de
tudo o que ele expôs. Paulo não pregou o que foi chamado de evangelho “pegar ou
largar”, mas trabalhou com zelo amoroso para alcançar os corações daqueles que
ouviram, e garantir deles uma resposta em fé. Vejamos que o imitamos nisto,
pois temos que lembrar de que, embora nada menos do que a ação do Espírito
Santo nos corações dos homens seja eficaz, o Espírito frequentemente Se agrada
em trabalhar por meio da capacidade de persuasão dos servos de Deus, que estão
cheios de amor e zelo.
Foi assim neste caso. O
registro aqui é que, enquanto alguns permaneceram na incredulidade, “alguns criam no que se dizia”. Quando
a Palavra é pregada, é quase sempre assim. Somente em Atos – quando Pedro
pregou a Cornélio – encontramos todos convertidos; mas isso não é o usual, pois
no momento presente Deus está chamando uma eleição tanto de judeus quanto de
gentios.
Para os judeus incrédulos,
antes de partirem, Paulo falou uma última palavra, citando a passagem de Isaías
6, que o próprio Senhor citou em Mateus 13, e João cita no capítulo 12 de seu evangelho.
Este triste e terrível processo de endurecimento e morte espiritual se instalou
mesmo nos dias de Isaías, cerca de sete séculos antes de Cristo. Foi muito mais
pronunciado quando Cristo estava na Terra; e agora o estágio final foi
alcançado. Paulo pronunciou estas palavras, percebendo que durante esta era do
evangelho, o dia de Israel como nação terminara. Nacionalmente, eles estão
cegos e sem entendimento das coisas de Deus, embora sejam muito perspicazes
quanto às coisas do mundo. Isso obviamente não entra em conflito com o fato de
que Deus ainda está chamando um remanescente de acordo com a eleição da graça,
como afirma Romanos 11.
É digno de nota que, citando
esta passagem, Paulo diz: “Bem falou o Espírito Santo”. Se nos voltarmos
para Isaías 6, encontramos o profeta dizendo a respeito desta mensagem: “ouvi a voz do Senhor”, referindo-se a Jeová dos Exércitos; e voltando-se para
João 12, encontramos o comentário: “Isaías
disse isto quando viu a Sua glória e
falou d’Ele”, e temos apenas que
olhar nos versículos precedentes para descobrir que a “Sua” e “d’Ele”
referem-se a Jesus. Quão simples é,
pois, que Jeová dos exércitos seja identificado tanto com Jesus como com o
Espírito Santo – três Pessoas, mas um só Deus.
O versículo 28 nos dá as
últimas palavras de Paulo, conforme registrado em Atos. Elas são muito
significativas, como nos dando o ponto para o qual o livro nos conduziu. Ele
proclama como uma mensagem definitiva de Deus que Sua salvação é agora enviada
aos gentios como resultado da cegueira e dureza do judeu; e ele acrescenta: “e eles a ouvirão”. Isso não significa
que todos eles ouvirão, mas sim que, distintamente do judeu, um ouvido que ouve
será encontrado lá. Isso, graças a Deus, provou ser verdade ao longo dos
séculos.
Quando o Senhor falou à
mulher siro-fenícia sobre as crianças e os cães, a pobre mulher, enxergando o
ponto, tomou o lugar de ser apenas um cão gentio, e ainda alegou que Deus era
bom o suficiente para permitir que houvesse algumas migalhas de misericórdia para
ela. Ela estava certa: o Senhor a chamou de grande e honrou-a, concedendo-lhe o
seu desejo. Mas aqui encontramos algo mais maravilhoso ainda. Os filhos
desprezaram e rejeitaram as boas coisas fornecidas, não apenas as migalhas, mas
toda a refeição foi enviada aos cães. Como o próprio Paulo coloca em Romanos 11:
“a sua queda é a riqueza do mundo, e a
sua diminuição a riqueza dos gentios” e “a sua rejeição é a reconciliação do mundo”. Isso não significa que
todo o mundo será finalmente reconciliado, mas que Deus agora Se voltou em
favor para com o mundo, oferecendo a Sua salvação a todos os homens.
Paulo ainda era um
prisioneiro, mas ele foi autorizado a alugar uma casa e morar lá e receber
todos os que desejavam vê-lo. Assim, ele teve oportunidades de testemunho e a Palavra
de Deus não estava presa. No que diz respeito a este livro, vemos que ele passou
dois anos inteiros pregando o reino de Deus e ensinando as coisas concernentes
ao Senhor Jesus Cristo, sem qualquer impedimento. Seu julgamento foi adiado pela
providência de Deus, e uma porta de pregação foi assim aberta para ele. Durante
esse tempo Onésimo foi convertido e, sem dúvida, outros também; algumas de suas
Epístolas também foram escritas.
Encerrando os Atos,
terminamos a história apostólica:
passando para Romanos, começamos a doutrina
apostólica. É a doutrina que nos permite entender o significado da história; enquanto a história nos permite apreciar a
autoridade e o peso da doutrina.