A carta escrita por Cláudio
Lísias é um documento bastante típico, no qual ele apresentou suas próprias
ações sob a luz mais favorável; mas, por outro lado, exonerava inteiramente a
Paulo qualquer coisa realmente má ou digna de morte. As únicas acusações contra
ele eram sobre “questões da lei deles”
(TB). Assim fica claro que o primeiro oficial romano em cujas mãos ele caiu,
rapidamente se convenceu de que as acusações contra ele eram quanto à sua fé, e
não havia culpa nele quanto a questões de conduta. Deus, evidentemente, cuidou
para que isso se tornasse abundantemente claro.
Assim foi ordenado que o
propósito dos quarenta homens fracassasse, apesar de seu voto e maldição. Paulo
estava em segurança nas fortes mãos de Roma, e no devido tempo seria capaz de
expor seu caso em uma atmosfera mais calma, e levar o Nome de seu Mestre diante
de “os gentios e reis”, bem como os
filhos de Israel, como havia sido predito por Ananias. Antes de tudo ele teve
que comparecer perante Felix, o governador.
A acusação de Paulo diante do
governador carrega todas as marcas de amargo ânimo e preconceito. O fato de que
não só os anciãos, mas até mesmo Ananias, o sumo sacerdote, achasse necessário
descer para se apresentar contra ele, mostra a importância que deram ao seu
caso. Então eles empregaram um advogado que, a julgar pelo seu nome, era um
romano e não um judeu. Tértulo, eles sem dúvida achavam, saberiam melhor do que
eles o que atrairia a mente romana, e assim teriam mais chances de garantir uma
acusação. Tértulo sabia e começou com
exagerada bajulação, pois o relato dado sobre a administração de Félix na
história secular está em plena oposição ao que ele afirmou. A isso seguiu-se uma
acusação quádrupla contra Paulo. Todas as quatro acusações eram vagas,
particularmente a primeira, que ele era uma peste, e a segunda que ele era um promotor
de sedições. Acusações vagas eram preferidas, pois ele sabia que elas não
poderiam ser facilmente desmentidas como normalmente acusações claramente
definidas podem ser.
A terceira e quarta acusações
foram um pouco mais definidas. A quarta, quanto a profanar o templo, era falsa,
como mostrava o capítulo anterior: a terceira era a única com alguma aparência
de verdade. Ele provou ser um líder entre os Cristãos, que eram conhecidos
pelos judeus como a seita dos nazarenos. Eles eram de fato seguidores do desprezado
Nazareno, mas eram enfaticamente não apenas uma nova seita entre os judeus. O
livro de Atos foi escrito para nos mostrar que eles não eram isso, mas sim algo
inteiramente novo. O mundo nunca entende qualquer obra genuína de Deus.
Tértulo teve o cuidado de
apresentar a ação de Lísias sob uma luz desfavorável, já que ele havia
reprimido a violência dos judeus; e os judeus apoiaram as afirmações de seu
advogado. Os judeus forneceram o ânimo e usaram o gentio como sua ferramenta,
como fizeram no caso do Senhor.
A resposta de Paulo foi em
todos os aspectos um contraste com a oratória de Tértulo. Ele reconheceu que
Felix teve muitos anos de experiência como juiz entre os judeus, mas se absteve
de lisonja. Ele evitou asserções vagas, negando explicitamente quaisquer
disputas e sedições, e salientando que apenas doze dias haviam se passado desde
o momento em que ele pusera os pés em Jerusalém. Ele mostrou que, embora
tivessem feito muitas acusações, não haviam fornecido provas e não podiam
fazê-lo. Então, fazendo uma confissão simples e clara do que o caracterizara, e
o que realmente estava no fundo da hostilidade deles, lançou em destaque aquilo
que estava no fundamento do evangelho que ele pregava. Eles chamavam isso de
heresia, mas era o próprio fundamento da verdade.
Desta forma, com habilidade,
Paulo anunciou sua crença em tudo o que havia sido escrito no Velho Testamento,
e mostrou que todas as esperanças Cristãs são baseadas na ressurreição, a qual,
é claro, foi confirmada em Cristo. E é igualmente certo que haverá uma
ressurreição para os injustos. Isso foi, evidentemente, um tiro dirigido à
consciência de Felix, bem como a todos os outros presentes. Ninguém permanecerá
enterrado na sepultura para escapar da mão poderosa de Deus em julgamento.
Tendo proclamado sua fé nas
Escrituras e na ressurreição, Paulo prosseguiu afirmando que sua conduta estava
de acordo com o que ele cria. Sua consciência era clara, e ele só tinha vindo a
Jerusalém em uma missão de misericórdia, e quando no templo, seu comportamento
tinha sido perfeitamente ordenado e correto. Foram os judeus da Ásia que
provocaram o tumulto, não ele; e agora que havia oportunidade para que eles
apresentassem suas acusações contra ele de uma maneira ordenada, eles não
estavam lá para fazê-lo.
Mas havia judeus presentes
que o haviam visto comparecer diante do conselho, e ele sabia que eles não
encontravam nenhuma falha nele, a não ser que declarava sua crença na
ressurreição. Paulo não tinha dúvida de que era a facção dos saduceus que o
perseguia tão implacavelmente e que comparecia contra ele, e ele teve o cuidado
de deixar bem claro para Felix que sua crença na ressurreição dos mortos, como
se verificou na ressurreição de Cristo, foi o verdadeiro ponto da questão. Pode
ser também que Paulo quisesse reconhecer que a maneira pela qual ele clamara no
conselho não tinha sido completamente livre de culpa.
Felix, como aprendemos no versículo
24, tinha uma esposa judia, e assim estava bem informado sobre as coisas, e
percebeu imediatamente que não havia nada de mal em Paulo. Ele suspendeu a
corte sob o pretexto de esperar por Lísias, o tribuno, então mais uma vez os
acusadores foram frustrados, especialmente porque o adiamento era “sine die”[1],
como nossos tribunais colocam. Entrementes, Paulo recebeu uma medida
extraordinária de liberdade, na qual novamente podemos ver a mão dominadora de
Deus.
Não há registro de Lísias
descendo, mas nos é dito como Félix, com Drusila sua esposa, chamaram por Paulo
e lhe deram uma audiência privada, enquanto ele testificou da fé em Cristo.
Esta foi uma grande oportunidade, e Paulo, evidentemente, conhecia o caráter
fraco e corrupto do governador, e assim enfatizou a justiça, temperança e
julgamento vindouro. Podemos tomar a justiça
como resumo da mensagem do evangelho, como Romanos 1:16-17, mostra tão claramente.
A temperança ou controle próprio é o
resultado do evangelho na vida de quem o recebe; e o julgamento vindouro é o que aguarda aqueles que o rejeitam. Assim,
embora o resumo dado do discurso de Paulo seja extremamente breve, podemos ver
que as três palavras abrangem os fatos salientes do evangelho.
Havia grande poder com a
mensagem e Félix tremia, mas ele adiou a questão para aquela “ocasião favorável” (AIBB), que tantas
vezes nunca chega. Foi assim neste caso. Dois anos se passaram antes que Felix
fosse substituído por Festo, e durante esse período houve várias entrevistas,
nada aconteceu, e Felix deixou Paulo preso no esforço de alcançar favor os
judeus. O verdadeiro cancro no coração de Felix era o amor ao dinheiro. Seu
caso ilustra de forma impressionante como pode haver uma obra poderosa do
Espírito por meio do evangelho de forma exterior no homem, mas como qualquer
trabalho no coração e a consciência interior podem ser sufocados por alguma concupiscência
ativa, como o amor ao dinheiro. A verdadeira conversão ocorre quando a obra exterior do Espírito é complementada e correspondida
pela obra interior do Espírito.
[1] N. do
T.: Sem fixar uma data futura.