Lucas não nos dá detalhes sobre
o que aconteceu em Anfípolis e Apolônia, mas transmite os acontecimentos em
Tessalônica. Neste capítulo, notamos que o pronome “nós” não é usado; então possivelmente Lucas, não estando tão
envolvido como Paulo e Silas estavam nos distúrbios em Filipos, permaneceu ali
para ajudar os que haviam se convertido ainda mais.
Paulo primeiro se dirigiu aos
judeus em sua sinagoga, como era seu costume. O versículo 3 nos dá a linha em
que ele se aproximou deles. Ele provou pelas próprias Escrituras que o Messias,
quando viesse, deveria sofrer a morte e ressuscitar dos mortos. Estabelecido isto,
seria simples apontar para Jesus como inquestionavelmente sendo o Messias.
Então, em um versículo, de uma forma resumida, nos é dada a coisa toda. Por
mais que os discursos tenham se prolongado, a questão toda é resumida nessas
poucas palavras, e elas servem de orientação para todos os que se aproximariam
do judeu hoje. Nem todos criam, mas alguns sim, e também muitos prosélitos
gregos e algumas das principais mulheres.
Em Filipos, o comportamento
desordenado originou-se de gentios decepcionados pelo fim de seus lucros; em
Tessalônica, judeus incrédulos estavam no fundo de uma oposição e desordem
ainda pior. Ao estigmatizar Paulo e Silas como: “estes que têm alvoroçado o mundo”, eles involuntariamente rendaram
um tributo ao grande poder do evangelho, pregado com o Espírito Santo enviado
do céu. Eles podem se opor, mas não podem impedir seu avanço.
O serviço de Paulo em
Tessalônica foi abreviado por esse motim, pois ele serviu no espírito da
instrução do Senhor registrada em Mateus 10:23. Assim, um movimento foi feito
agora em direção a Bereia, onde os judeus mostraram um espírito muito
diferente. Eles tinham uma mente aberta, que os caracterizou como “mais nobres”, e quando Paulo lhes
mostrou o que as Escrituras haviam predito, eles as examinaram com diligência
e, com isso, muitos creram. Uma mente que está pronta e livre de preconceitos,
e que de bom grado se curva à Escritura, é de fato uma coisa nobre.
Tal hostilidade à Palavra de
Deus marcou os judeus tessalonicenses, porém, eles perseguiram Paulo a Beréia
e, em face de mais problemas, Paulo fugiu para Atenas, despistando seus
perseguidores por uma simples artimanha. Silas e Timóteo permaneceram em
Beréia, pois evidentemente a animosidade era agora especialmente dirigida
contra Paulo. Assim, aconteceu sua visita a Atenas, o grande centro da cultura
e da sabedoria gregas, Paulo estava sozinho no que dizia respeito a seu
serviço.
Atenas era o grande centro de
aprendizado e filosofia gregos; também estava cheio de ídolos. A mais alta
cultura humana e a mais grosseira idolatria podem coexistir de forma bastante
amigável. E Paulo andou no meio desse estado de coisas, e a visão disso dolorosamente
excitou seu espírito. Embora ainda sem seus companheiros, ele não podia
descansar diante daquela situação, e assim começou a testemunhar tanto aos
judeus como aos gentios. Deste modo, certos filósofos tiveram a atenção atraída
para ele, e esses homens, embora pertencessem a escolas opostas e tratando-o
com desprezo, tiveram sua curiosidade suficientemente despertada para desejar
ouvir mais. Assim aconteceu que lhe foi dada a oportunidade de falar diante de
uma assembleia dos intelectos mais cultos da época.
É-nos dado um vislumbre, nos
versículos 18-21, das condições que prevaleceram em Atenas. Havia imensa
atividade mental e uma insaciável investigação de novas ideias. Eles passavam o
tempo falando ou ouvindo “alguma novidade”;
não, é claro, apenas fofoca ou tagarelice, mas as mais recentes noções
filosóficas. Por isso, a pregação de “Jesus
e a ressurreição” feita por Paulo pareceu-lhes uma grande novidade ligada a
algumas divindades, para as quais até então haviam sido estranhos. Os epicureus
acreditavam que o bem maior seria encontrado na gratificação dos desejos da
pessoa, e os estóicos diziam que esse bem maior estava em reprimi-los, mas
quais eram essas novas ideias?
Paulo abriu seu discurso no
Outeiro de Marte (o significado de Aerópago), dizendo-lhes que eram muito “supersticiosos” ou “entregues à adoração demoníaca” (JND).
Entre seus muitos santuários, eles tinham até um altar dedicado “ao deus desconhecido”, para que não
houvesse algum demônio, desconhecido deles, que precisasse ser aplacado. Paulo
se apegou a isso e fez dele o tema de seu discurso, pois era perfeitamente
verdade que o Deus vivo era completamente desconhecido para eles. Paulo
anunciou a eles o Deus que eles não conheciam; e se examinarmos o breve relato
de seu discurso, podemos ver como ele colocou Deus diante deles. Quanto às
coisas de Deus, esses atenienses cultos eram simplesmente pagãos; então aqui
somos instruídos como o evangelho deve ser apresentado aos pagãos.
Paulo começou apresentando-o
como o Deus da criação. Isso está na
base de tudo. Se não O conhecemos assim, definitivamente não O conhecemos. É
por isso que a teoria da evolução funciona tão desastrosamente. Sua principal
atração para muitos é que ela permite dispensar completamente a Deus, ou pelo
menos empurrá-Lo para tão longe – a um remoto segundo plano, para torná-Lo indigno
de consideração. Paulo O trouxe para frente da cena que apresentou, Ele não
apenas fez o mundo, mas todas as coisas que ele contém. Ele não pode estar
contido nas construções dos homens, nem adorado como se precisasse de alguma
coisa das mãos dos homens. Ele é o próprio Dador da vida e todas as coisas.
Todos os homens são Suas criaturas, feitas de um só, e seus tempos e limites são
determinados por Ele.
Permaneceram alguns lampejos
de luz quanto a isso entre eles, e Paulo foi capaz de citar alguns de seus
próprios poetas como tendo falado da humanidade como sendo a descendência de
Deus. Nisso eles estavam certos. Somente pela fé em Cristo Jesus nos tornamos filhos de Deus, mas todos os homens são
Seus geração como Suas criaturas.
Sendo assim, não devemos conceber Deus como algo menor que nós mesmos ou como
obra de nossas próprias mãos; e devemos ser aqueles que buscam por Ele. Sua imanência[1] é reconhecida nas palavras: “n’Ele vivemos, e nos movemos, e existimos”;
Paulo, porém, pregou-O como o Único Transcendente[2],
que é o Senhor do céu e da Terra.
Mas esse Deus da criação é
também o Deus de tolerância. Os
homens não gostaram de reter Deus em seu conhecimento, e assim as nações haviam
caído na ignorância de Deus. Por alguns séculos, os atenienses se orgulharam de
sua cultura e aprendizado, embora durante todo o tempo eles estivessem nos “tempos da ignorância” – da ignorância de Deus – e Paulo lhes disse isso tão
claramente. No entanto, Deus “tolerou” ou não levou “em conta” essa ignorância, agindo com “paciência [tolerância –
TB]” (Rm 3:5), em vista daquilo que
Ele iria fazer por meio de Cristo.
Mas agora Cristo é vindo e
Deus Se proclama como o Deus de justo julgamento.
Ele designou o dia em que tomará as rédeas do governo pelo Homem de Sua escolha,
e toda a Terra será julgada e administrada em justiça. Em vista disso, o
arrependimento é a única coisa certa para os homens injustos, onde quer que
estejam. É a única coisa certa, e Deus ordena isto.
A garantia da vinda deste dia
do justo julgamento foi dada na ressurreição do Homem da escolha de Deus.
Assim, finalmente, Paulo colocou Deus como o
Deus da ressurreição. Algo inteiramente fora de todos os cálculos humanos
havia ocorrido. Jesus havia sido ressuscitado da morte na qual o homem havia O entregado!
Paulo começou seu trabalho em Atenas anunciando Jesus e a ressurreição entre os
trabalhadores do mercado; ele
terminou com o mesmo tema quando falou aos pensadores
no Outeiro de Marte (Aerópago).
Seus cérebros ocupados
giravam no mundo do homem e, portanto, a ressurreição estava bem fora de seu
campo de visão. Para muitos deles parecia um absurdo, e eles zombavam. Outros
manifestaram algum interesse, mas adiaram considerações adicionais, por não
verem urgência no assunto. Alguns, no entanto, creram, tanto homens como
mulheres, e estes se juntaram a Paulo. Essas três classes geralmente aparecem
quando o evangelho chega a qualquer lugar: há os escarnecedores, os
procrastinadores e os crentes.
A permanência de Paulo em
Atenas foi curta: ele não esperou mais por seus companheiros, mas seguiu para
Corinto. Portanto, é provável que aqueles que disseram: “Acerca disso te ouviremos outra vez” não tiveram oportunidade de
fazê-lo.
[1] N. do T.: Imanência é a qualidade ou característica do que é
inerente ao mundo material e concreto. É o antônimo de transcendência
[2] N. do T.: Transcendência é a qualidade ou característica daquilo que
excede ou está acima dos limites normais; muito elevado; sublime.