Este capítulo abre com um
incidente solene que destaca, com um surpreendente realce, um último recurso
que caracterizou a Igreja primitiva: houve o
exercício de uma disciplina santa pelo poder de Deus. O caso de Ananias e
Safira foi excepcional, sem dúvida. Quando Deus institui algo novo, parece ser
o Seu modo de assinalar Sua santidade, fazendo um exemplo de qualquer um que a
desafie. Ele fez isso com o homem que violou o sábado no deserto (Nm 15:32-36),
e também com Acã, quando Israel começava a entrar em Canaã (Js 7:18-26), e
assim com Ananias e sua esposa aqui. Mais tarde, na história de Israel, muitos violaram
o sábado e tomaram as coisas babilônicas proibidas sem incorrer em penas
similares, assim como durante a história da Igreja muitos deles agiram em mentiras
ou disseram mentiras sem cair mortos.
O que estava por trás da
mentira nesse caso eram os males gêmeos da cobiça e da vaidade. Ananias queria
manter parte do dinheiro para si e, ainda assim, ganhar a reputação de ter
dedicado tudo ao Senhor, como Barnabé fizera. Tal é a mente da carne, mesmo em
um santo. Quantos de nós nunca tiveram obras malignas semelhantes em seus
corações? Mas neste caso, Satanás estava trabalhando, e por meio do infeliz casal,
ele emitiu um desafio direto ao Espírito Santo presente na Igreja. O Espírito
Santo aceitou o desafio e demonstrou Sua presença dessa maneira dramática e
inconfundível. Pedro reconheceu que esta era a posição, quando ele falou a Safira
de suas ações como um acordo “para
tentar o Espírito do Senhor”.
Como resultado, o desafio de
Satanás foi transtornado para servir aos interesses do Senhor e de Seu
evangelho, como mostram os seguintes versículos. Em primeiro lugar, este
episódio colocou grande temor sobre todos que ouviram falar dele, e mesmo sobre
a própria Igreja. Aqui está indicado algo que faz muita falta na Igreja hoje –
para não falar dos homens em geral. O temor de Deus é algo muito saudável nos
corações dos santos e é bastante compatível com um profundo sentimento do amor
de Deus. Paulo tinha esse temor à luz do tribunal (2 Co 5:10-11), embora que para
o incrédulo isso vá além do temor, para o inegável terror. Um temor piedoso,
brotando de um profundo senso da santidade de Deus, deve ser muito desejado.
Então, como a primeira parte
do versículo 12, e os versículos 15 e 16 mostram, não houve afrouxamento no
poder miraculoso de Deus, ministrado por meio dos apóstolos. De fato, o poder
aumentou, de modo que a mera sombra de Pedro provocou prodígios. Dentro de um
parêntese (vs. 12-14 – JND e KJV), temos a afirmação de que, depois de tal
acontecimento, os homens tinham medo de se unirem à companhia Cristã; no
entanto, essa não foi verdadeiramente uma perda, pois impediu qualquer coisa
com a natureza de um movimento em massa, que teria varrido uma grande
quantidade de falsidade para dentro da Igreja. A verdadeira obra de Deus não
foi impedida, como diz o versículo 14. Pessoas podem ser adicionadas à Igreja, sendo
meros professos, mas ninguém é “agregado
ao Senhor” (ARA), exceto aqueles em quem há uma obra vital de Deus. Assim,
o triste negócio de Ananias e Safira foi suplantado para bem, embora que para
um observador superficial pudesse parecer um duro golpe para as perspectivas da
Igreja.
Tendo Deus trabalhado desta
maneira impressionante para abençoar, vemos no versículo 17 o próximo
contra-ataque de Satanás. Os sacerdotes e saduceus, cheios de indignação,
prendem-nos novamente. Isto é refutado por Deus ao enviar um anjo para abrir as
portas da prisão e libertá-los. No dia seguinte, sendo descoberta a liberdade
deles, são presos novamente, mas de maneira muito mais suave. As palavras dos
sacerdotes confessam o poder com o qual Deus estivera em ação, pois admitem que
Jerusalém havia sido enchida com a doutrina; todavia, manifestam a terrível
dureza de seus corações ao dizer: “quereis
lançar sobre nós o sangue desse Homem”. Ora, eles mesmos disseram: “O Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos
filhos” (Mt 27:25). A verdade era que Deus iria levar adiante essa palavra deles
e cumpri-la.
A resposta de Pedro foi curta
e simples. Eles iriam obedecer a Deus e não aos homens. Então Pedro novamente
resumiu seu testemunho e o repetiu. O Espírito Santo e os apóstolos foram
testemunhas da ressurreição de Jesus, a Quem eles mataram. Mas Deus O havia
exaltado não para ser naquele momento o Juiz, proferindo a condenação sobre
suas cabeças culpadas, mas para ser Príncipe e Salvador, concedendo a Israel arrependimento
e perdão (remissão) dos pecados. O arrependimento e o perdão são vistos como uma
dádiva.
Embora a misericórdia e o
perdão continuassem sendo o peso da mensagem de Pedro, sua proclamação só os
incitou à fúria. A misericórdia pressupõe pecado e culpa, e eles não estavam
dispostos a admitir; por isso eles formaram conselho para matá-los. Satanás é
um homicida desde o princípio e, sob sua influência, o homicídio encheu seus
corações. No entanto, Deus tem muitas maneiras de derrotar os desígnios
malignos dos homens, e neste caso Ele usou a sabedoria terrena do renomado
Gamaliel, que teve Saulo de Tarso como seu discípulo.
Gamaliel citou dois casos
recentes de homens que se levantaram fingindo ser alguém; o tipo de homem a
quem o Senhor mencionou em João 10, quando falou daqueles que “sobem por outra parte”, e que eram
apenas ladrões e salteadores. Eles não deram em nada, e Gamaliel pensou que
Jesus poderia ter sido um desses falsos pastores, em vez do verdadeiro Pastor
de Israel. Se Ele tivesse sido como tais, Sua causa também teria dado em nada.
A advertência de Gamaliel produziu efeitos e os apóstolos foram libertados,
embora tenham sido açoitados e demandados a que cessassem seu testemunho.
Verdadeiramente, o concílio
estava lutando contra Deus, pois os apóstolos se alegraram em seu sofrimento por
Seu Nome e diligentemente seguiram em seu testemunho, tanto publicamente no
templo quanto em particular em todas as casas.