Esta grande igreja, composta
principalmente de gentios, tinha nada menos que cinco profetas e mestres no
meio dela. Seus nomes são dados e se mostram muito instrutivos; porque um deles
tinha um sobrenome que provavelmente indica que ele era um homem negro (Níger
significa Negro), um era suficientemente distinto tendo sido um irmão adotivo
de Herodes, Barnabé era um judeu helenista, Saulo tinha sido um fariseu dos
fariseus e Lúcio pode ter sido um gentio. Assim, desde o principio era
manifesto que a raça e a criação não são as coisas que contam mais
decisivamente na Igreja, mas o dom que é concedido do alto. Esses homens não
somente ministravam aos santos para sua instrução, mas também ao Senhor em
ações de graças, intercessão e jejum; e foi em uma dessas ocasiões privadas que
o Espírito Santo deu instruções definidas de que Barnabé e Saulo deveriam ser
separados especialmente para ir com o evangelho ao mundo gentio.
O primeiro e o último dos
cinco foram escolhidos para esta missão. Os outros oraram por eles e se
identificaram com eles em seu próximo serviço pela imposição de mãos. Esta
imposição de mãos não era o que hoje é chamado de “ordenação”, pois os dois
homens escolhidos já estavam em pleno exercício de seu ministério. A imposição
de mãos invariavelmente expressa identificação. Os outros disseram de fato: “Estamos
inteiramente com você em sua missão”; de modo que em plena comunhão, e sem
ciúmes ou rivalidade, eles os enviaram.
Mesmo assim, foi realmente o
Espírito Santo que os enviou, como diz o versículo 4; e para Chipre, à antiga
casa de Barnabé, eles foram em primeiro lugar, Marcos, seu sobrinho, os
acompanhando. Chegados a Pafos, eles tiveram o encorajamento de encontrar o governador
principal da ilha pronto para a Palavra de Deus; mas ao mesmo tempo encontraram
oposição satânica. A oposição dos poderes das trevas é um sinal encorajador, e
não o inverso.
Elimas era um judeu apóstata,
que se vendeu ao serviço do diabo, e ele se tornou o principal oponente do evangelho
em Pafos. Mas assim como o poder de Satanás foi expresso nele, assim o poder do
Espírito Santo energizou Saulo, e ali foi dada uma prova muito impressionante e
drástica de que “maior é O que está em
vós do que o que está no mundo” (1 Jo 4:4). O verdadeiro caráter do homem
foi desmascarado, e a mão do Senhor foi colocada sobre ele em julgamento. É
impressionante que Saulo deva agora ser usado para trazer algo semelhante
àquele que havia caído sobre si mesmo. Depois de três dias, as escamas caíram
dos olhos de Saulo. Em Elimas, desceu “uma
névoa e trevas” (TB), que combinavam apropriadamente com a escuridão
enevoada de sua mente. O procônsul creu, e foi a doutrina do Senhor que o impressionou e não o milagre.
A partir deste ponto da narrativa,
Lucas dá a Saulo seu novo nome de Paulo (significando Pequeno), e ao mesmo
tempo vemos o Espírito empurrando-o para a posição de liderança no serviço e
ministério, de modo que no versículo 13, “Paulo
e seus companheiros” (ARA), é a frase usada. Existe uma conexão projetada,
pensamos, entre a mudança de nome e a mudança de posição. Aquele que é Pequeno se torna o líder; e isso ilustra as palavras do Senhor em Mateus 18:4. Será
que isso tem algo a ver com João Marcos deixando a companhia neste momento, nos
perguntamos? Barnabas, seu tio, estava sendo um pouco ofuscado.
Em Antioquia, na Pisídia, os
governantes da sinagoga convidaram os visitantes para que falassem uma
mensagem, e novamente Paulo é aquele que aproveita a oportunidade e fala. O
registro de sua pregação é dado – versículos 17 a 41 – então aqui temos uma
visão valiosa de sua apresentação do evangelho a uma audiência mista de judeus
e prosélitos.
Ele começou com a escolha de
Deus por seus pais no Egito, tirando-os de lá e, a partir daí, levou-os à
escolha de Deus por Davi e à Sua promessa de um Salvador da semente daquele
homem. Ele então apresentou Jesus como sendo a Semente prometida, como
testemunhado por João Batista. Agora, a notícia da salvação que está
centralizada naquele Salvador foi enviada a todos os seus ouvintes, incluindo: “os que dentre vós temem a Deus”; isto
é, os prosélitos gentios entre eles.
Ele então passou a falar da
morte e ressurreição de Jesus: Sua morte, o ato iníquo dos judeus de Jerusalém,
Sua ressurreição, o ato de Deus, e aquela ressurreição amplamente confirmada
pelo testemunho de confiáveis testemunhas. Por isso, ele lhes trouxe “boas-novas” de duas maneiras. Primeiro, as boas-novas de Deus
cumprindo Sua promessa de “suscitar
[levantar – AIBB]” (TB) Jesus. Esse versículo se
refere à vinda do nosso Senhor ao mundo, de acordo com o Salmo 2. Então, segundo, houve a boa notícia de que,
quando os homens entregaram Jesus à morte, Deus O ressuscitou dos mortos para
nunca mais morrer. Paulo encontrou uma alusão à ressurreição em “as firmes beneficências [seguras misericórdias – JND] de Davi” (Is 55:3), bem como nas
palavras bem conhecidas, que ele cita do Salmo 16. Uma foi escrita sobre Davi, e a outra escrita por Davi; mas em nenhum dos casos o
Espírito de Deus realmente Se referiu a Davi,
como diz o versículo 36. Davi “havendo
servido à sua própria geração pela vontade de Deus” (AIBB), viu corrupção,
e as palavras de seu Salmo só poderiam se referir a Cristo.
Tendo assim estabelecido a
ressurreição de Cristo, Paulo levou seu discurso ao ponto mais alto pelo
anúncio do perdão dos pecados por meio deste “Homem”, ressuscitado dos mortos. O anúncio foi feito com uma
entonação como uma proclamação divina. Não havia citações das Escrituras do Velho
Testamento para isso. “Seja-vos, pois,
notório”, disse ele. O que ele anunciou eles deveriam saber, pois realmente
era Deus Quem estava falando por meio de seus lábios. Em 1 Coríntios 2:13,
encontramos Paulo reivindicando a inspiração do Espírito Santo para suas
palavras faladas; e assim sendo, não hesitamos em concordar a mesma inspiração
aos seus escritos, preservados para nós no Novo Testamento. Quando Paulo disse:
“Seja-vos,
pois, notório”, então aqueles que criam poderiam saber. E da mesma maneira nós
sabemos, quando cremos nas Sagradas Escrituras.
Paulo não apenas deixou claro
este anúncio geral do perdão; ele também declarou o resultado positivo que
seguiria a crença na mensagem do evangelho. Por Cristo, o crente é justificado de tudo. Pelas obras da lei,
nenhum de nós pode ser justificado de nenhuma forma: pela fé de Cristo somos
justificados de tudo. Somos absolvidos de toda acusação que poderia se levantar
contra nós e investidos da “justiça que vem
de Deus pela fé” (Fp 3:9). Tudo isso depende da fé em Cristo, ressuscitado
dos mortos. É “por este (Homem)” e “por Ele”.
Paulo fechou seu discurso com
uma palavra de advertência, e isso estava de acordo com o que ele afirma em Romanos
1:16-18. No evangelho, a “justiça de
Deus” é revelada, como acabamos de ver no versículo 39 de nosso capítulo;
mas é revelada sobre terrível pano de fundo da “ira de Deus”. Daí as suas solenes palavras nos versículos 40 e 41.
O modo como ele cita Habacuque 1:5 é muito impressionante, pois a alusão é
clara aos caldeus. No entanto, embora os caldeus tenham sido um cumprimento
imediato da profecia, evidentemente haverá um cumprimento maior e final no
julgamento do Dia do Senhor. Nenhuma profecia da Escritura é de qualquer “particular interpretação” (2 Pe 1:20).
Os versículos 43-48 mostram
que o evangelho é de fato o “poder de
Deus” para a salvação de todos os que creem. Judeus e prosélitos foram
alcançados primeiramente; mas quando a massa dos judeus, cheios de inveja,
começou a violenta oposição, os apóstolos definitivamente se voltaram para os
gentios com a oferta de salvação, encontrando em Isaías 49:6 uma ordem clara do
Senhor para fazê-la. Luz e salvação para os gentios tinham sido o propósito de
Deus desde os dias da antiguidade. Muitos gentios creram e assim se tornou manifesto
que eles foram ordenados para a vida eterna. Não sabemos quem é ordenado para a vida eterna, por isso não
podemos prever quem vai crer. Quando encontramos alguém realmente crente, sabemos imediatamente que são ordenados
para a vida eterna.
Não somente em Antioquia era
pregada a Palavra, mas também em toda a região circunvizinha; e a prosperidade
da obra provocou tamanha perseguição que Paulo e Barnabé tiveram que partir.
Poderíamos ter considerado desastroso que esses novos discípulos deveriam achar perseguição e perder os seus pregadores. A obra em suas almas, no entanto, era de
caráter tão sólido que, em vez de estarem deprimidos, estavam cheios de alegria
e do Espírito Santo. Sem dúvida, os discípulos são mais frequentemente
prejudicados pela prosperidade do que pela perseguição.