Por trás de todos os ataques
e dificuldades que confrontaram a Igreja primitiva em Jerusalém estava o grande
adversário, o próprio Satanás. Foi ele que instigou os saduceus à violência e à
tentativa de intimidação. Ele encheu o coração de Ananias para mentir e assim
trazer corrupção, tentando o Espírito do Senhor. Agora que esses ataques
anteriores foram derrotados, ele se move de uma maneira mais sutil, explorando
pequenas diferenças que existiam dentro da própria Igreja. Os “gregos” de quem fala o primeiro versículo
deste capítulo, não eram gentios, mas judeus de fala grega, vindos das terras
de sua dispersão, enquanto os “hebreus”
eram os judeus naturais de Jerusalém e da Palestina.
O primeiro e maior problema
dentro da Igreja – o de Ananias – era sobre dinheiro. Se o segundo não era
sobre dinheiro, era sobre um assunto muito semelhante a ele; à distribuição das
suas necessidades diárias, visto que tinham todas as coisas em comum. O primeiro
era sobre conseguir o dinheiro: o
segundo sobre distribuir o dinheiro,
ou seu equivalente. Aqueles a uma distância maior pensavam que estava havendo parcialidade
em favor do povo local. Anteriormente o problema maior criou apenas uma pequena
dificuldade, pois foi instantaneamente enfrentado no poder do Espírito: agora o
problema menor criou a maior dificuldade, como vemos em nosso capítulo. Este,
acreditamos, tem sido quase sempre o caso na história da Igreja: os casos mais
difíceis de resolver são aqueles em que, no fundo, há muito pouco a ser
resolvido.
Foi apenas uma “murmuração” que surgiu, mas os
apóstolos não ficaram esperando que ela se tornasse um enorme clamor. Eles
discerniram que o objetivo de Satanás era desviá-los da pregação da Palavra
para o serviço social, de modo que tomaram medidas para pôr fim a quaisquer
possíveis objeções. Eles instruíram a Igreja a selecionar sete homens para se
ocuparem com esse serviço, que deveriam ser “de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria”. Sua
administração deveria ser marcada pela sabedoria e honestidade que tinha de ser
acima de qualquer suspeita.
Neste negócio, a Igreja deveria
selecionar seus próprios administradores; mas o negócio era a distribuição dos
fundos e alimentos que a própria Igreja havia arrecadado. Nunca lemos da Igreja
sendo chamada para selecionar ou nomear seus anciãos ou bispos ou ministros da
Palavra, já que a graça espiritual e os dons que eles distribuem não são
providos pela Igreja, mas por Deus. A seleção e ordenação destes, consequentemente,
está nas mãos de Deus. Aos anciãos em Éfeso, Paulo disse: “o Espírito Santo vos constituiu bispos” (At 20:28). Deus designa aqueles que devem
administrar Sua beneficência.
Então os apóstolos
continuaram a se entregar à oração e ao ministério da Palavra. Para aqueles que
são ensinados, a Palavra vem em primeiro lugar (1 Tm 4:5), pois só oramos
corretamente, conforme somos instruídos na Palavra. Para aqueles que ministram,
a oração vem em primeiro lugar, pois sem oração eles não falarão a Palavra
corretamente.
Assim como a sabedoria
prevalecia com os apóstolos, assim a graça prevalecia na Igreja, pois todos os
sete homens escolhidos tinham nomes que sugeriam uma origem grega e não
hebraica, e de um deles é dito ter sido um prosélito, do que se conclui que ele
veio de uma origem gentia. Desta forma, a multidão cuidou para que todas as
murmurações e questionamentos, tivessem fundamentos ou não, fossem silenciados.
Os apóstolos se identificaram com a escolha da Igreja, colocando suas mãos
sobre os homens escolhidos, com oração. Nos bastidores, o adversário foi
novamente frustrado.
Ele foi mais do que frustrado
na verdade; pois em vez de os apóstolos serem desviados da Palavra de Deus, ela
aumentou muito, e muitas novas conversões ocorreram, sendo até mesmos
alcançados muitos sacerdotes. Além disso, um dos sete, Estêvão, tornou-se um
vaso especial da graça e poder do Espírito de Deus; Tanto que, até o final do
nosso capítulo, e todo o capítulo 7, seguimos o que Deus operou por meio dele,
até o momento de seu martírio.
O poder que operava em
Estêvão era tão marcante que provocou oposição de novas frentes. Os homens das
várias sinagogas, mencionados no versículo 9, aparentemente eram todos da
classe grega, à qual o próprio Estêvão pertencia. Toda a habilidade
argumentativa deles não era nada quando confrontada com o poder do Espírito em
Estêvão. Então eles recorreram à tática habitual de testemunhas mentirosas e
violência. No versículo 11 eles citaram Moisés antes de Deus; pois sabiam o que
mais atrairia as paixões da multidão, a quem Moisés, sendo um homem, era mais
real do que o Deus invisível. Assim também, no versículo 13, “este lugar santo”, que estava diante
de seus olhos, teve precedência sobre a lei; e finalmente, “os costumes que Moisés nos deu” eram talvez mais apreciados por eles
do que tudo o mais. Arrastando Estevão para diante do conselho, acusaram-no de
blasfêmia e de proclamar Jesus Nazareno como um destruidor do lugar santo e
costumes deles. Havia tanta verdade nessa acusação, que o advento de Jesus de
fato inaugurou um novo início nos caminhos de Deus.
Desta forma pública a
controvérsia entre a nação e Deus foi levada um passo adiante. Eles lançaram o
desafio, e Deus aceitou o desafio enchendo Estevão com o Espírito que até a
forma de seu rosto foi alterada, e todo mundo a viu. Por meio de seus lábios, o
Espírito Santo procedeu a dar uma palavra final de testemunho contra a nação. O
conselho se viu colocado na sala de audiência de Deus pelo Espírito Santo
falando por meio do próprio homem que estava sendo acusado na sala de audiência
deles.